Washington (EUA) – Organizações de criadores de gado nos Estados Unidos contestam publicamente a proposta do presidente Donald Trump de aumentar de 20 mil para 80 mil toneladas a cota de importação de carne bovina da Argentina com o objetivo de reduzir o preço do produto no mercado interno.
O anúncio informal foi feito por Trump em meados de outubro de 2025 e reiterado dias depois a bordo do Air Force One. Segundo o presidente, a medida ajudaria a conter a alta nos supermercados. A ideia, contudo, mobilizou imediatamente entidades como a R-CALF, que representa pecuaristas independentes, e produtores de estados tradicionais na atividade, caso de Illinois.
“Traição” e temor de concorrência
Christian Lovell, criador no estado de Illinois, resume o sentimento de parte do setor: “Sentimos que fomos entregues a um concorrente estrangeiro”. Bill Bullard, presidente da R-CALF, classifica o plano como “contradição” em relação ao discurso “América Primeiro”.
Para tentar conter a insatisfação, a Casa Branca divulgou na semana passada um pacote de auxílio financeiro ao segmento. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, declarou que as negociações com Buenos Aires não resultarão em “incremento significativo” de importações, mas a explicação não foi suficiente para acalmar totalmente os produtores.
Participação argentina ainda é modesta
Atualmente, a carne argentina representa 2,1% das compras externas dos EUA. Dados da Universidade Texas A&M mostram que os maiores fornecedores são Brasil, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e México, com o Brasil respondendo sozinho por 23% das importações norte-americanas.
Economistas como David Anderson, da Texas A&M, e Arlan Suderman, da StoneX, avaliam que mesmo quadruplicando a cota argentina o impacto sobre os preços no varejo seria limitado. Eles lembram que o verdadeiro gargalo está na oferta doméstica: o rebanho bovino dos EUA é o menor em 74 anos, reflexo de anos de seca e de preços baixos pagos ao produtor.
Mercado concentrado
Produtores também apontam a concentração da indústria de abate como causa da inflação na prateleira. Quatro grandes frigoríficos controlam cerca de 80% do processamento, situação que, segundo os criadores, limita a competição e pressiona os valores pagos ao consumidor sem repassar ganhos ao campo.
Contexto sul-americano
Paralelamente ao debate da carne, o governo Trump aprovou em outubro um swap cambial de US$ 20 bilhões para o governo do aliado argentino Javier Milei. A decisão alimentou críticas de que a atenção do Executivo estaria voltada mais a Buenos Aires do que aos pecuaristas norte-americanos.
Enquanto o impasse prossegue, analistas lembram que ajustes na produção doméstica levam pelo menos dois anos, período necessário para levar um bezerro ao peso de abate. Até lá, o consumidor norte-americano deve continuar convivendo com preços elevados, independentemente do volume vindo da Argentina.
Fim.
De acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a redução do rebanho americano em 2024 já havia sido estimada em 2% em relação ao ano anterior, o menor nível desde 1951.
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Com informações de G1
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