O alto custo das passagens entre cidades ameaça a permanência de alunos. Em Aracaju, MPF reuniu UFS, IFS, governo, prefeituras, Assembleia e o DCE para discutir medidas que reduzam tarifas e garantam o acesso à educação.
O alto custo das passagens entre cidades sergipanas voltou ao centro do debate sobre acesso à educação. Em Aracaju, o Ministério Público Federal (MPF) conduziu uma reunião que colocou frente a frente representantes da Universidade Federal de Sergipe (UFS), do Instituto Federal de Sergipe (IFS), governo estadual, prefeituras, Assembleia Legislativa e entidades estudantis. A conversa integra inquérito civil instaurado após representação do Diretório Central dos Estudantes da UFS (DCE/UFS) e buscou detalhar como a tarifa intermunicipal interfere na permanência de alunos em cursos de ensino superior e técnico.
Na pauta, estavam números que ilustram o peso financeiro do deslocamento diário. De acordo com relatos apresentados, há estudantes que chegam a desembolsar R$ 900 por mês só em transporte. Entre Aracaju e Lagarto, o gasto diário pode alcançar R$ 50, valor incompatível com a renda de muitos universitários.
Faltam dados consolidados sobre quantos jovens dependem do serviço, de onde partem e qual o impacto orçamentário de uma política pública de apoio. Mesmo assim, o MPF reforçou a necessidade de avançar no tema.
“Precisamos saber quantos estudantes necessitam do serviço, de onde saem, para quais campi se deslocam e qual seria o impacto financeiro de uma política pública. A complexidade exige estudo e planejamento, não pode justificar a ausência de providências”, afirmou o procurador da República Ígor Miranda.
Entre os problemas relatados estão a falta de linhas diretas, múltiplas tarifas por trecho e ausência de ônibus para o retorno após as aulas noturnas. Alguns alunos informaram que deixam a aula antes do horário previsto para não perder o último veículo rumo à cidade de origem.
A limitação também afeta o desempenho acadêmico.
“Existem políticas que permitem o ingresso de estudantes em situação de vulnerabilidade, mas, depois que entram, muitos não têm condições de chegar ao campus. Sem transporte, o direito à educação não se concretiza”, disse o presidente do DCE/UFS, Fábio Henrique de Souza.
Hoje, a UFS oferece um auxílio-transporte de R$ 100 mensais, montante considerado insuficiente para quem precisa viajar diariamente. O resultado aparece nos índices de trancamento de matrícula: 8,05% em Nossa Senhora da Glória, 4,59% em Laranjeiras, 4,10% em Lagarto e 0,47% em Itabaiana. Embora os números não vinculem exclusivamente o transporte à evasão, a vulnerabilidade socioeconômica desponta como fator determinante.
No IFS, cerca de 75% dos estudantes se enquadram em situação de vulnerabilidade oficial. A reitora Ruth Sales Gama de Andrade destacou que a grade horária tem de ser ajustada às janelas de ônibus.
“A mobilidade é obrigação pública, não favor. As instituições federais levam cursos, profissionais e oportunidades para o interior, mas é preciso garantir que os estudantes consigam chegar aos campi”, afirmou.
Levantamento entregue ao MPF mostrou diferentes estratégias municipais. Laranjeiras, por exemplo, custeia oito ônibus e atende mil alunos a um custo anual de R$ 2,5 milhões. Já São Cristóvão ofertou 600 vagas em 14 linhas em 2025. Barra dos Coqueiros mantém três ônibus locados, mas admite demanda reprimida de 103 estudantes. Em Propriá, a solução veio de associação estudantil que cobra R$ 200 mensais por passageiro, enquanto Nossa Senhora da Glória repassa auxílio financeiro e mantém dois ônibus próprios para o IFS. Lagarto ainda não enviou informações solicitadas e será novamente oficiada.
O Departamento Estadual de Infraestrutura Rodoviária (DER/SE) informou que o Plano Diretor de Transporte Intermunicipal (PDTI) está 80% pronto, mas não incluía um capítulo específico para universitários. O MPF pediu a inserção do tema no documento.
“A conclusão do planejamento estadual sem qualquer consideração sobre o transporte estudantil seria incompatível com tudo o que já foi apresentado. Não se está determinando uma gratuidade imediata e sem fonte de custeio. O que se exige, neste momento, é que o Estado estude o problema e apresente alternativas”, pontuou Ígor Miranda.
Durante a reunião, a Coopertalse lembrou que benefícios tarifários só se sustentam com fonte de compensação. Também foi discutida a eventual integração de Laranjeiras ao sistema metropolitano de transporte, pendente de análise técnica.
Como encaminhamento, o DER/SE sugeriu à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura (Sedurbi) a criação de um Grupo de Trabalho (GT) com Seplan, Alese, Undime, DCE/UFS, UNE, bancada federal, UFS, IFS e demais interessados. A missão será mapear rotas, dimensionar demanda, calcular custos e desenhar modelos de financiamento. Instituições terão 15 dias para enviar informações sobre alunos atendidos, trajetos e demandas reprimidas. Depois disso, o MPF consolidará o material e encaminhará ao DER/SE e à Sedurbi para subsidiar o plano de trabalho.
Outro ponto discutido foi articular a inclusão do transporte universitário na Política Nacional de Assistência Estudantil, medida que poderia garantir recursos estáveis para o benefício. Enquanto propostas e estudos não se convertem em ações concretas, estudantes seguem contabilizando cada real gasto para manter vivo o sonho de um diploma.
Siga o SE Por Dentro e entre no nosso grupo de notícias.








