O litoral de Sergipe registrou 20% mais ninhos, subindo de 10.684 para 12.846 na temporada 2024/25. MPF, ICMBio e Projeto Tamar creditam o ganho a ajustes na iluminação para reduzir a fotopoluição.
O litoral de Sergipe registrou um salto de 20% no número de ninhos de tartarugas marinhas na temporada reprodutiva 2024/2025. Os dados da Fundação Projeto Tamar indicam que a quantidade passou de 10.684, na temporada anterior, para 12.846, resultado que especialistas relacionam ao conjunto de iniciativas adotadas para combater a fotopoluição nas praias.
As medidas foram conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Projeto Tamar. O foco principal foi adequar pontos de iluminação pública e privada que emitiam luz diretamente voltada para a faixa de areia, fator que desorienta fêmeas durante a desova e filhotes recém-nascidos na corrida rumo ao mar.
Entre as ferramentas utilizadas estão fiscalizações, recomendações, análises técnicas e a celebração de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) com condomínios, empreendimentos turísticos e prefeituras. Na Orla Sul de Aracaju, por exemplo, toda a rede de postes convencionais foi substituída por luminárias LED equipadas com anteparos capazes de limitar a dispersão luminosa em direção ao oceano. Vistorias noturnas resultaram em um cronograma de correções que envolveu ajustes de inclinação, rotação e posicionamento dos equipamentos.
Estabelecimentos comerciais como bares, restaurantes e hotéis também foram inspecionados. Os casos que ainda precisam de adequação continuam sob acompanhamento, e novas visitas já estão previstas para verificar o cumprimento de prazos.
Na Barra dos Coqueiros, outro importante berçário de tartarugas, condomínios de grande porte firmaram compromissos para reduzir o impacto da luz artificial. As cláusulas incluem a diminuição da potência das lâmpadas, a limitação da tonalidade à faixa de 2.700 K, o redirecionamento do facho para o solo e o desligamento de refletores esportivos após as 22h. Os acordos envolvem empreendimentos como Maikai Residencial Resort, Associação Damha Sergipe e Alphaville Sergipe, este último com obrigações permanentes de modernização dos anteparos assinadas em agosto de 2026.
Os técnicos do Tamar apontam que a poluição luminosa é uma das principais ameaças à reprodução das cinco espécies de tartarugas observadas na costa nordestina. A claridade excessiva pode levar filhotes a seguir rumo ao continente, onde ficam vulneráveis a atropelamentos, predadores e desidratação.
“Embora a elevação significativa no número de ninhos de tartaruga monitorados resulte de um conjunto histórico de ações de conservação, a eliminação de ameaças evitáveis nas praias, como a fotopoluição, se mostrou indispensável para assegurar o ciclo biológico dos animais”, afirmou o procurador da República Ígor Miranda.
O MPF informou que a fase atual do trabalho é de acompanhamento sistemático. O objetivo é garantir que as exigências inseridas nos TACs se tornem políticas permanentes, incorporadas tanto ao licenciamento ambiental quanto ao planejamento urbano nos municípios costeiros.
Especialistas do ICMBio ressaltam que, além da redução de luz, outras práticas seguem essenciais: fiscalização de trânsito de veículos sobre a areia, controle de animais domésticos soltos e campanhas de conscientização. A meta é manter o índice de crescimento da temporada 2024/2025 e consolidar Sergipe como referência nacional em conservação de tartarugas marinhas.
Entidades ambientais também veem espaço para expandir o trabalho a áreas ainda não cobertas pelo monitoramento contínuo. Com cerca de 163 quilômetros de litoral, Sergipe reúne condições naturais favoráveis à desova, mas depende da cooperação entre poder público, setor privado e moradores para manter as praias seguras e escuras nas noites de postura.
A expectativa é de que os resultados positivos estimulem novos investimentos em iluminação sustentável e reforcem a importância de políticas que aliem desenvolvimento turístico à preservação da fauna marinha.
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