BUENOS AIRES – O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) concluiu a revisão do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Argentina, que ainda se apoia em hábitos de consumo de quase 20 anos atrás, quando DVDs, aparelhos de MP3 e jornais impressos tinham peso maior que serviços de streaming.
Segundo técnicos do órgão, a atualização utiliza a Pesquisa de Despesas Familiares de 2017-2018 e deve ser anunciada até o fim do ano, depois das eleições legislativas de outubro. A mudança ocorre em meio ao esforço do presidente Javier Milei para exibir queda da inflação, que em agosto ficou em 1,9% no mês e 33,6% em 12 meses, bem abaixo dos quase 300% registrados em maio de 2024.
O que muda no novo IPC
Atualmente, o índice acompanha 609 itens distribuídos em 12 grupos de produtos e serviços. A nova metodologia ampliará o número de preços monitorados de 320 mil para 500 mil e aumentará os estabelecimentos informantes de 16,7 mil para 24 mil, em um processo totalmente digitalizado.
Embora 85% da cesta permaneça inalterada, categorias antigas serão reduzidas ou excluídas – caso de reprodutores de MP3 e câmeras digitais – enquanto serviços modernos, como plataformas de streaming, aplicativos de mobilidade e smartphones, serão incorporados. O peso de alimentos e bebidas deve cair mais de três pontos percentuais, ao passo que moradia, transporte e comunicações ganharão força.
Impacto sobre a política econômica
Especialistas ouvidos pelo mercado estimam que o IPC de 2024 poderia ter sido até 15 pontos percentuais maior se já considerasse o novo perfil de consumo. Para Milei, que conta com um acordo multibilionário do Fundo Monetário Internacional (FMI) para sustentar o ajuste fiscal, um índice mais alto pode dificultar a estratégia de capitalizar politicamente a desaceleração dos preços.
O diretor do Indec, Marco Lavagna, minimizou o efeito e calculou que as diferenças entre os dois métodos variariam entre 0,1 e 0,2 ponto percentual, mas reconheceu que tarifas públicas em alta e a retirada de subsídios podem pressionar o resultado final.
Brasil também revisa sua cesta
No Brasil, a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) foi realizada em 2017-2018 e já incluiu streaming, aplicativos de transporte e pacotes de TV por assinatura. Uma nova edição 2024-2025 está em fase final, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas especialistas apontam que o país ainda mantém parâmetros mais atualizados que os argentinos.
Para organismos internacionais, como o FMI, a revisão contínua da cesta é essencial para refletir mudanças estruturais de consumo e melhorar a qualidade dos dados estatísticos.
Com a atualização pronta e aguardando aval institucional, o governo argentino tenta equilibrar a necessidade técnica de modernizar o indicador com o risco político de ver a inflação oficial subir justamente no momento em que exibe sinais de alívio.
Com informações de g1
Dados técnicos sobre a metodologia de índices de preços podem ser consultados no site do Fundo Monetário Internacional (FMI), que recomenda atualizações periódicas de cestas de consumo.
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