Brasília – O avanço das compras chinesas de produtos básicos brasileiros, impulsionado pela guerra tarifária entre Estados Unidos e China, colocou o país asiático no centro das exportações do Brasil e reacendeu o debate sobre os efeitos dessa dependência na indústria nacional.
Participação recorde nas vendas externas
Entre 2013 e 2023, o Brasil exportou US$ 838,8 bilhões para a China. Quase dois terços desse valor corresponderam a soja e minérios, segundo levantamento da professora Ana Elisa Saggioro Garcia, da PUC-Rio. Em 2024, o mercado chinês respondeu por 28% de todas as vendas externas brasileiras; em 2023, essa fatia chegou a 30%.
Indústria perde espaço
Dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) mostram que 74% das importações brasileiras vindas da China em 2023 foram bens de alta e média-alta tecnologia, enquanto apenas 5% das exportações brasileiras para o país asiático se enquadraram nesse perfil. No mesmo período, o Índice de Complexidade Econômica do Brasil caiu da 23ª posição em 1998 para a 49ª em 2023.
Soja e minério in natura dominam a pauta
O Brasil é o maior produtor de soja do mundo, mas ocupa apenas o terceiro lugar em processamento da oleaginosa. Entre 2014 e 2024, a produção nacional cresceu 79%, e o processamento, 48%. Na China, a capacidade de esmagamento alcançou 99 milhões de toneladas em 2024, quase o dobro do volume brasileiro.
Na mineração, mais de 280 milhões de toneladas de minérios foram enviadas à China em 2024, em sua maioria insumos básicos como ferro, alumínio e cobre. Apenas rochas ornamentais, ouro e nióbio saem do país já beneficiados.
Leis domésticas e incentivos
Especialistas apontam a Lei Kandir, que isenta de ICMS a exportação de produtos, inclusive in natura, como fator que estimulou o envio de commodities sem processamento. “O Brasil abriu seu mercado para itens mais competitivos vindos da China, mas não usou o superávit para investir em setores estratégicos”, afirma Ana Garcia.
Planos para reverter o quadro
Lançado em janeiro de 2024, o programa Nova Indústria Brasil prevê R$ 300 bilhões em investimentos até 2026 para modernizar o parque fabril. Para os economistas ouvidos, aproveitar a parceria com Pequim passa por exigir transferência de tecnologia e projetos conjuntos — movimento iniciado com a instalação de montadoras chinesas de veículos elétricos no país.
Risco da dependência
Concentrar quase um terço das exportações em um único destino preocupa analistas como Roberto Dumas, do Insper: “Qualquer choque político ou econômico pode afetar essa demanda e expor o Brasil”. Além disso, há a possibilidade de a China buscar autossuficiência agrícola ou fechar novo acordo com os EUA, o que reduziria compras de soja brasileira.
Cenário geopolítico e futuro da relação
Apesar dos alertas, diplomatas como Marcos Caramuru avaliam que o comércio bilateral deve permanecer forte. O Brasil, porém, mantém distância de iniciativas estratégicas chinesas, como a Nova Rota da Seda, reforçando a política de não alinhamento automático.
Com a tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre produtos brasileiros desde 6 de agosto, Pequim sinalizou disposição para defender o multilateralismo ao lado de Brasília. Ainda assim, especialistas não esperam grande redirecionamento de manufaturas brasileiras para o mercado chinês, dada a baixa competitividade da indústria nacional.
O debate, portanto, segue centrado em como transformar o superávit com a China em investimentos que elevem a complexidade produtiva do país e reduzam o risco de desindustrialização.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a China permanece como maior parceira comercial do Brasil desde 2009, impulsionando superávits bilionários.
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Com informações de g1
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