Begoña Gómez, mulher do premier da Espanha, foi a julgamento por corrupção e está proibida de sair do país. Ela responde por tráfico de influência e desvio de verbas públicas.
A crise política em Madri ganhou um novo capítulo no sábado, 20/06, quando o juiz Juan Carlos Peinado ordenou que Begoña Gómez, esposa do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, fosse a julgamento sob acusações de peculato, tráfico de influência, corrupção em negócios e apropriação indébita de fundos públicos. A decisão incluiu a apreensão do passaporte da ré, a proibição de que ela deixe o território espanhol e a obrigação de comparecer ao tribunal duas vezes por mês.
Segundo o despacho, o magistrado apontou indícios de que Gómez teria usado a condição de cônjuge do chefe de governo para alavancar sua carreira em uma universidade de Madri. O processo nasceu em 2024, após a organização anticorrupção Manos Limpias — com ligações a grupos da direita conservadora — apresentar queixa por suposto tráfico de influência.
“Hoje é um dia terrível para aqueles de nós que acreditam na Justiça”, escreveu no X o ministro da Justiça, Félix Bolaños, ao comentar a decisão, acrescentando: “A verdade prevalecerá no final”.
Pedro Sánchez, no poder desde 2018 à frente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), recusou qualquer irregularidade da esposa e classificou o caso como “farsa obscena” motivada por interesses políticos. O premiê chegou a afastar-se das funções por quase uma semana em 2024, quando as suspeitas vieram à tona, para refletir se permaneceria no cargo.
A ofensiva judicial contra pessoas ligadas ao governo não se limita a Gómez. A sede nacional do PSOE, em Madri, foi alvo de busca recentemente numa apuração sobre possível uso de verbas partidárias para custear críticas públicas a processos envolvendo a legenda. O Tribunal Superior da Espanha confirmou que a operação mira uma “rede destinada a minar ações judiciais contra o partido ou o governo”.
Outros aliados de Sánchez também enfrentam investigações. O ex-primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero responde a inquérito por suposto crime organizado, enquanto o ex-ministro José Luis Ábalos foi acusado de receber propina na compra de máscaras durante a pandemia de Covid-19 e passou sete meses preso antes de ir a julgamento em abril. Já David Sánchez, irmão músico do premiê, é réu por tráfico de influência em Badajoz.
Apesar de o atual chefe de governo não ser formalmente investigado, a multiplicação de escândalos fragilizou a coalizão minoritária que sustenta o gabinete. Pesquisas recentes indicaram vantagem do Partido Popular (PP), liderado por Alberto Núñez Feijóo, que poderia formar maioria parlamentar com a sigla de direita Vox caso eleições gerais fossem convocadas agora. A próxima disputa está marcada, no calendário oficial, para até agosto de 2027, mas especialistas avaliam que o bloco governista pode ruir antes.
Dentro da própria aliança, partidos regionais bascos questionaram a viabilidade do pacto, e a legenda de esquerda Sumar avisou que não tolerará provas de uso ilegal de recursos. Mesmo pressionado, Sánchez reafirmou publicamente a intenção de concluir o mandato, tornando o desfecho da crise um dos temas mais acompanhados na política europeia.
A Constituição espanhola estabelece que um primeiro-ministro só cai mediante voto de desconfiança bem-sucedido no Parlamento — mecanismo que levou Sánchez ao poder em 2018, após um grande escândalo de corrupção abalar o então governo do Partido Popular. Agora, o socialista enfrenta situação parecida do outro lado do tabuleiro, com a ressalva de que, desta vez, o epicentro das denúncias atinge diretamente o seu círculo familiar.
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