Na cozinha da Escola Doutor Carvalho Neto, 13 mães e avós aprenderam a fazer doces enquanto as crianças estão de férias. A ação vira fonte de renda e reflete o crescimento de lares chefiados por mulheres (51,7%).
No bairro Novo Paraíso, em Aracaju, a cozinha da Escola Municipal Doutor Carvalho Neto se transformou em um espaço de aprendizado e empreendedorismo. Enquanto as crianças aproveitam as férias, 13 mulheres, entre mães e avós, se reuniram para aprender a confeccionar doces e iguarias que podem se tornar uma fonte de renda. O ambiente, antes silencioso, foi preenchido pelo som do chiado da calda no tacho e pelas conversas animadas dessas empreendedoras em potencial.
De acordo com dados da PNAD Contínua, analisados pelo FGV IBRE em 2025, 51,7% dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres, refletindo um aumento significativo de 87% desde 2012. Em Sergipe, o Censo 2022 do IBGE revelou que o estado lidera o país em lares chefiados por mulheres sem cônjuge, totalizando 136,7 mil mulheres que sustentam suas famílias sozinhas, o que representa 21,61% das composições familiares.
Esse panorama demográfico tem incentivado muitas mulheres a explorarem o empreendedorismo como uma alternativa para melhorar suas condições de vida. Em 2025, mais de 2 milhões de novos CNPJs femininos foram registrados no Brasil, representando 42% do total de empresas abertas no ano, segundo a Receita Federal, um aumento de 320 mil em relação a 2024.
O Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM) promoveu a segunda edição da oficina de doces, onde as participantes aprenderam a fazer receitas como pé de moça, bala baiana e cocada cremosa. A autônoma Iuriene da Silva compartilhou sua experiência: “Eu já faço doces em casa para as festas dos meus filhos e de familiares. Não trabalho com isso há muito tempo, mas estou procurando me especializar e esse curso foi uma nova oportunidade.”
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O segmento de alimentação é destacado como uma das principais atividades empreendedoras entre microempreendedores individuais. Segundo levantamento do Sebrae em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, 87% das confeitarias e docerias de micro e pequeno porte operam em residências, facilitando o acesso a novos negócios.
A história da autônoma Vanita dos Santos é um exemplo dessa tendência. “Eu vendo doces e salgados pela redondeza – pudim, brigadeiro, beijinho, coxinha… O pessoal encomenda para festinha, aniversário, mas quero me aprimorar mais,” contou. Na oficina, ela teve a oportunidade de aprender o ponto certo da calda, além de novas receitas para diversificar seu cardápio. A aposentada Selma Santos Oliveira também demonstrou interesse em ampliar sua produção: “Não conhecia nenhum desses doces modernos. Quero começar a vender também.”
As aulas foram conduzidas por Cristiane Bispo, uma culinarista de Ribeirópolis, que encontrou na cozinha sua nova vocação após um acidente que a afastou de sua antiga profissão. Com uma confeitaria na garagem de casa, ela busca não apenas ensinar receitas, mas também inspirar outras mulheres a conquistar sua independência financeira.
Danielle Santana, coordenadora de Gestão e Articulação Social do IJCPM em Aracaju, ressaltou a importância da iniciativa: “Quando o instituto vai até a comunidade, encurtamos esse caminho.” A agricultora Mariana Silva, por sua vez, não hesitou em participar: “Nunca tinha participado de um curso assim e a primeira chance que eu tive eu não deixei escapar.”
Para as participantes, a oficina representa não só uma oportunidade de aprimorar técnicas e diversificar o cardápio, mas também uma chance de vislumbrar um futuro mais próspero. O que começou em uma tarde de julho, na cozinha de uma escola pública, pode se transformar em histórias de sucesso e superação.
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