WASHINGTON – O preço do ouro à vista superou a marca de US$ 4 mil (aproximadamente R$ 21 mil) por onça troy (31,104 g) e registra a cotação mais elevada em um século, impulsionado pela combinação de incerteza econômica global, disputa comercial e paralisação parcial do governo dos Estados Unidos.
Desde o início do ano, o metal precioso acumula valorização superior a 50% e já bateu 52 recordes diários, de acordo com analistas de mercado. Só entre abril e outubro, a alta foi de cerca de um terço, período em que o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou novas tarifas sobre o comércio internacional.
Busca por refúgio e juros mais baixos
Especialistas atribuem o movimento principalmente ao desaquecimento da economia dos EUA, à expectativa de cortes nas taxas de juros e ao enfraquecimento do dólar. “O retorno no ano chega a 54%, desempenho que não se via desde 1979”, observa Reghina Hammerschmid, gestora da Vontobel.
Carsten Menke, diretor de pesquisa da Julius Baer, aponta que o cenário de juros mais baixos “deve continuar atraindo investidores em busca de proteção”. O ouro dobrou de preço em três anos, aproximação comparável apenas ao salto ocorrido após o fim do padrão Bretton Woods, nos anos 1970.
Impacto do impasse orçamentário
A paralisação do governo norte-americano, que entra na segunda semana por falta de aprovação do orçamento federal, reforçou a corrida por ativos de segurança. Episódios semelhantes já haviam impulsionado o metal durante o primeiro mandato de Trump, quando a cotação subiu quase 4% em um mês.
Analistas destacam ainda as críticas públicas do presidente ao Federal Reserve (Fed) e a tentativa de demitir uma diretora da instituição, fatores que, segundo Claudio Wewel, da J. Safra Sarasin Sustainable AM, pressionam ainda mais a credibilidade do banco central.
Demanda de bancos centrais e investidores de varejo
Além dos investidores institucionais, compradores de varejo vêm ampliando posições. A empresa de cofres Silver Bullion afirma ter dobrado o número de clientes em 12 meses. “A maioria armazena o ouro por mais de quatro anos”, afirma o fundador, Gregor Gregerson.
Nos bastidores, bancos centrais também reforçam reservas. Segundo o Conselho Mundial do Ouro, as autoridades monetárias adquiriram mais de 1 mil toneladas do metal por ano desde 2022, ritmo duas vezes maior que a média entre 2010 e 2021. Polônia, Turquia, Índia, Azerbaijão e China lideram as compras recentes.
Riscos no horizonte
Alguns analistas alertam que uma retomada forte da inflação poderia forçar o Fed a elevar os juros, movimento que tende a reduzir a atratividade do ouro. No momento, contudo, a expectativa predominante é de flexibilização monetária, o que sustenta a cotação.
A trajetória do metal continuará ligada à evolução da política fiscal dos EUA, à postura do Federal Reserve e aos desdobramentos das disputas comerciais lideradas pela Casa Branca.
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O ouro mantém seu papel histórico de refúgio em tempos turbulentos, e o mercado segue atento aos próximos capítulos da crise política e econômica norte-americana.
Com informações de G1
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