Caracas – A Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) continua a produzir e refinar petróleo mesmo após a ofensiva militar que derrubou Nicolás Maduro, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declara intenção de “consertar” a indústria petrolífera do país.
Reservas gigantes e estrutura fragilizada
Com cerca de 17% das reservas comprovadas do planeta – mais de 300 bilhões de barris –, a Venezuela sustenta a própria economia no petróleo. A PDVSA responde por 90% das receitas de exportação, mas atravessa anos de deterioração: interferência política, corrupção, perda de especialistas e redução de investimentos fizeram a produção cair mais de 70% desde o fim dos anos 1990, segundo analistas do setor.
A estatal estabilizou a extração em aproximadamente 1 milhão de barris por dia, apoiada por licenças pontuais concedidas a empresas estrangeiras, como a Chevron. Mesmo assim, opera com infraestrutura sucateada e acesso restrito a financiamento e tecnologia por causa de sanções impostas pelos EUA a partir de 2017.
Plano de Washington
Em coletiva no sábado, 3 de janeiro, Trump defendeu a entrada de “gigantescas companhias petrolíferas” americanas para investir bilhões de dólares e recuperar a infraestrutura venezuelana. A proposta inclui um período de transição em que empresas como ExxonMobil e Chevron liderariam a produção, em parceria com a PDVSA.
Para Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras e professor da FGV, a tendência é substituir o atual monopólio por um modelo de colaboração: “O cenário mais provável é a criação de um novo arcabouço regulatório que permita à PDVSA atuar ao lado de companhias internacionais”.
Mercado reage
O entusiasmo inicial impulsionou as ações de petrolíferas dos EUA na segunda-feira (5); a Chevron subiu 5,1%. No dia seguinte, com a percepção de que mudanças levarão tempo, os papéis recuaram mais de 4%.
Especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que, no curto prazo, o impacto nos preços globais do petróleo tende a ser limitado. A produção venezuelana continua baixa e um aumento expressivo exigiria anos de investimentos e recuperação de instalações.
Disputa geopolítica
A China, principal destino do petróleo venezuelano, compra cerca de 430 mil barris diários e é credora de US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos pela commodity. Analistas entendem que a movimentação de Washington busca reduzir a influência de Pequim e Moscou sobre Caracas.
Apesar dos ataques, as plantas de produção e as refinarias da PDVSA permanecem sem danos significativos, de acordo com a agência Reuters. O porto de La Guaira, contudo, sofreu impactos severos.
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, resume o desafio: “A PDVSA perdeu investidores e exporta hoje apenas um terço do volume de 20 anos atrás, mas continua com enorme potencial graças às reservas”.
Enquanto se definem os rumos do setor, o mercado observa se o novo arranjo atrairá capital privado suficiente para reerguer a infraestrutura e recolocar o petróleo venezuelano em maior escala no mercado internacional.
Próximos passos – Qualquer aumento relevante de produção, segundo Helder Queiroz, ex-diretor da ANP, dificilmente ocorrerá antes de cinco anos. Até lá, a PDVSA deve negociar parcerias e regras para atrair tecnologia e recursos.
O desenrolar dessas tratativas definirá não só o futuro da estatal, mas também o peso da Venezuela no tabuleiro energético global.
Com informações de G1
Dados da Administração de Informação sobre Energia dos EUA mostram que, mesmo com as sanções, a Venezuela permanece entre os oito países com maior volume de reservas provadas de petróleo.
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