São Paulo – Comentários nas redes sociais favoráveis ao modelo de trabalho remoto levaram dois profissionais paulistanos à demissão e reacenderam o debate sobre até onde vai a liberdade de expressão de empregados fora do expediente.
O que aconteceu
O coordenador de segurança da informação Wanderley Bueno publicou, em seu status do WhatsApp, uma crítica ao regime presencial após enfrentar um trem lotado a caminho do centro da capital. A mensagem chegou à diretoria, ele perdeu espaço em reuniões e, um mês e meio depois, foi dispensado.
No mesmo período, a especialista em gestão de risco e compliance Jenifer Matias ficou quase quatro horas presa em um vagão do Metrô durante um incidente na Linha 3–Vermelha. Ela relatou a experiência no LinkedIn e defendeu o home office. Advertências informais se sucederam até que, sob o argumento de “quebra de confiança”, recebeu aviso de desligamento. Nenhum dos dois citou o nome das empresas nas postagens.
Reação das empresas
Os casos ocorrem em meio ao movimento de retorno aos escritórios, tendência já observada em grandes companhias como Amazon e Dell. Segundo levantamento da consultoria JLL, a taxa de vacância em edifícios corporativos de São Paulo recuou a níveis inferiores aos da pré-pandemia, sinalizando maior ocupação de escritórios.
Visão de especialistas
A diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Leyla Nascimento, avalia que a demissão por uma postagem deve ser a última alternativa. Para ela, a falta de diálogo interno faz os desabafos migrarem às redes sociais e, quando isso ocorre, o conflito “explode”.
De acordo com a advogada trabalhista Elisa Alonso, o empregador pode punir publicações que prejudiquem a reputação da companhia ou revelem informações sigilosas. Já o também advogado Affonso Garcia Moreira Neto lembra que, nos casos de Wanderley e Jenifer, houve demissão sem justa causa, o que obriga o pagamento de todas as verbas rescisórias, mas não impede ações na Justiça por dano moral.
A professora de direito empresarial Adriana Faria ressalta que empresas podem restringir conteúdos de funcionários, desde que a regra esteja descrita em contrato ou política interna clara e não seja genérica nem abusiva.
Dados sobre a volta ao presencial
Pesquisa da Mercer Brasil com 365 profissionais de RH aponta as principais dificuldades atribuídas ao trabalho remoto:
- 76% citam insegurança quanto à produtividade;
- 66% mencionam excesso de reuniões virtuais;
- 61% veem desafios de liderança;
- 52% relatam impacto na cultura organizacional;
- 51% têm dificuldade de acompanhar iniciantes.
Paralelamente, o Ministério do Trabalho registrou 8,5 milhões de pedidos de demissão voluntária em 2024. Entre 53 mil entrevistados, 15,7% saíram pela falta de flexibilidade e 21,7% citaram dificuldade de locomoção.

Imagem: Internet
Próximos passos dos demitidos
Wanderley limitou o acesso de colegas a seus perfis pessoais e revisa publicações com auxílio de inteligência artificial. Jenifer, desempregada, planeja abrir um negócio no setor de turismo com rotina flexível e pretende processar o antigo empregador.
Os episódios reforçam o embate entre a liberdade de manifestação dos trabalhadores e a proteção da imagem corporativa, disputa que tende a crescer conforme avança o retorno ao presencial.
Com informações de g1
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, políticas claras de conduta online podem reduzir conflitos entre empresas e empregados.
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