Brasília – Um novo relatório sobre desigualdade divulgado nesta quarta-feira (10), o World Inequality Report 2026, indica que a parcela da renda concentrada entre os mais ricos cresceu no Brasil na última década, contrariando nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que celebrou queda recorde da desigualdade em 2024.
Resultados opostos
O estudo internacional, elaborado pelo World Inequality Lab – que tem o economista francês Thomas Piketty entre seus diretores – conclui que a desigualdade brasileira “permanece entre as mais altas do mundo”. Segundo o documento, a fatia da renda nacional apropriada pelos 10% mais ricos subiu de 57,9% em 2014 para 59,1% em 2024, após atingir 59,9% em 2021, auge da pandemia.
Em sentido inverso, a participação dos 50% mais pobres recuou de 10,7% para 9,3% no mesmo período. O relatório usa a razão entre a renda dos 10% mais ricos e a dos 50% mais pobres como indicador de desigualdade; esse índice passou de 53,7 para 63,5 entre 2014 e 2024.
Já a nota técnica do Ipea, divulgada recentemente, aponta que o coeficiente de Gini obtido a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) caiu de 61,5 para 50,4 entre 1995 e 2024, atingindo, segundo o instituto, o menor patamar em três décadas. O estudo também registrou crescimento de quase 70% na renda média mensal per capita e queda da pobreza extrema de 25% para 5% no intervalo de 30 anos.
Metodologias distintas
A principal divergência está na base de dados utilizada. O Ipea trabalhou exclusivamente com informações da Pnad, coletadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já o World Inequality Report 2026 combinou dados da Pnad, do Imposto de Renda da Receita Federal e das contas nacionais para estimar a renda do topo da pirâmide, considerada sub-reportada em pesquisas domiciliares.
Pesquisadores ouvidos pela reportagem consideram que levantamentos domiciliares tendem a subestimar rendimentos de empresários e investidores, enquanto declarações de imposto de renda captam melhor ganhos de capital. O economista Guilherme Klein, da Universidade de Leeds, defende o uso combinado das duas fontes para medir a desigualdade.
Repercussão no governo
A nota do Ipea foi comemorada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e por ministros no Palácio do Planalto. Nas redes sociais, Lula destacou que “o Brasil vive uma nova realidade, com mais oportunidades, melhora da renda e redução da desigualdade”. Integrantes do governo também citaram a reforma do Imposto de Renda aprovada pelo Congresso, que isenta salários de até R$ 5 mil e cria alíquota mínima de 10% para rendas acima de R$ 50 mil mensais.
Justificativa do Ipea
Um dos autores da nota técnica, o sociólogo Pedro Herculano de Souza, afirmou que optou por não usar dados tributários porque, no início da pesquisa, em março, as informações da Receita estavam disponíveis apenas até 2021. Ele argumentou que a atualização trimestral da Pnad permitiu analisar mais rapidamente o período pós-pandemia.
Souza reconhece as limitações das pesquisas domiciliares, mas ressalta que mudanças na tributação podem distorcer séries históricas do Imposto de Renda. O pesquisador disse ainda que pretende incorporar dados mais recentes do fisco assim que forem disponibilizados.
Com informações de G1
De acordo com o IBGE, pesquisas domiciliares como a Pnad continuam sendo a principal fonte oficial de dados sobre renda e pobreza no país, embora reconheçam limitações para captar ganhos do topo.
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O debate sobre a medição da desigualdade permanece aberto. Continue acompanhando nossas publicações para entender como novas metodologias podem alterar a leitura dos indicadores sociais brasileiros.
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