Washington (EUA) – A escalada tarifária promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, somada às críticas recorrentes ao Federal Reserve (Fed), tem sido interpretada por analistas como parte de uma estratégia para reduzir o valor do dólar. A iniciativa, segundo especialistas, busca impulsionar as exportações e diminuir o persistente déficit comercial norte-americano.
Por que um dólar mais fraco interessa à Casa Branca
Em diversas declarações públicas, Trump reconheceu que aprecia a imagem de uma moeda forte, mas avalia que um câmbio valorizado encarece os produtos feitos nos EUA e afasta turistas. A declaração mais recente ocorreu em julho, antes de viagem à Escócia, quando o republicano afirmou que “é possível ganhar muito mais dinheiro com uma moeda mais fraca”.
Um dólar valorizado encarece tratores, caminhões e demais bens produzidos nos EUA, reduzindo a competitividade externa. Para o economista André Perfeito, tarifas de 15% perdem eficácia se o dólar se fortalece na mesma proporção: “Fica elas por elas”, resume.
Impacto das tarifas e reação dos mercados
Desde o “tarifaço” de abril, o índice DXY — que compara o dólar a seis moedas fortes, como euro e iene — acumula queda superior a 10% em 2025. No mesmo período, o ouro avançou quase 40% e o real se valorizou cerca de 14%, fechando a R$ 5,32 na última sexta-feira.
“Não é o real que está forte, é o dólar que está fraco”, explica Perfeito, ao destacar que a moeda norte-americana segue demandada por ser a principal reserva global.
Ataques ao Fed e corte de juros
A pressão de Trump sobre o banco central norte-americano ganhou força nas últimas semanas. O Fed reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 4% a 4,25% ao ano — primeiro corte em nove meses. O único voto contrário foi de Stephen Miran, indicado por Trump, que defendia redução de 0,50 ponto.
Para André Roncaglia, diretor-executivo do Brasil no FMI, ao baixar juros, o governo tenta reduzir a entrada de capitais no país e, assim, aliviar a pressão de valorização sobre a moeda sem comprometer o status do dólar como reserva internacional.
Stablecoins entram no radar
Com juros menores, títulos do Tesouro tendem a pagar menos. Para manter a demanda, Trump sancionou em julho o Genius Act, primeira lei federal a disciplinar stablecoins. A regra exige que essas moedas digitais sejam lastreadas em ativos seguros, sobretudo títulos públicos, criando demanda adicional por esses papéis.
“Quem emite a stablecoin recebe os dólares e compra bônus do Tesouro”, explica Perfeito. Dessa forma, o governo busca equilibrar o efeito do corte de juros e sustentar o apetite por sua dívida.
Histórico de tentativas de desvalorização
Trump não é o primeiro a almejar um dólar mais fraco. Em 1971, Richard Nixon encerrou a conversão da moeda em ouro; em 1985, o Acordo de Plaza reuniu EUA e aliados para intervenção cambial; e, em 2009, Barack Obama pressionou a China a valorizar o yuan enquanto expandia a base monetária doméstica. Nenhuma das iniciativas, contudo, alterou de forma permanente a hegemonia do dólar.
O professor Roberto Dumas, do Insper, avalia que a ofensiva tarifária e cambial de Trump tende a produzir ganhos limitados se não houver aumento da poupança interna: “Os EUA gastam muito e poupam pouco; isso é estrutural”.
A efetividade do atual plano ainda é incerta, admitem os economistas, que citam a necessidade de aceitação do mercado para que stablecoins e cortes de juros cumpram o papel de atenuar a força do dólar.
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De acordo com explicações do Federal Reserve, a força do dólar está diretamente ligada ao papel da moeda como principal reserva internacional, fator que dificulta movimentos de desvalorização permanente.
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Com informações de g1
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