Almería (Espanha) – Uma mancha branca de 32 mil hectares – área comparável a 44 mil campos de futebol – cobre o solo árido entre El Ejido e a capital provincial de Almería. O conjunto de estufas, apelidado de “Mar de Plástico”, é a única obra humana que, segundo a Nasa, pode ser vista a olho nu do espaço e produz cerca de quatro milhões de toneladas de alimentos por ano.
Potência que começou nos anos 1950
O impulso à agricultura intensiva teve origem na década de 1950, quando o governo espanhol perfurou aquíferos subterrâneos para driblar a escassez de chuva – são apenas 54 dias chuvosos anuais na região. Equipamentos de bombeamento importados da Califórnia e o modelo de estufas, inspirado na Holanda, permitiram cultivar em um dos ambientes mais secos da Europa.
Hoje, Almería fatura aproximadamente US$ 5,1 bilhões por ano com a atividade, responsável por 40 % do Produto Interno Bruto provincial e 18 % das exportações agrícolas espanholas. O setor emprega cerca de 100 mil pessoas e tem no pimentão o principal produto, seguido por pepino, tomate, abobrinha, berinjela, melão e melancia. Alemanha, Reino Unido, França, Itália e até Estados Unidos figuram entre os principais destinos.
Força de trabalho majoritariamente migrante
Levantamentos indicam que 60 % dos trabalhadores das estufas são migrantes, sobretudo do norte da África. A Associação em Prol dos Direitos Humanos da Andaluzia (APDHA) calcula que 25 mil dos 110 mil empregados atuem sem contrato. Segundo a advogada Jennifer Cárdenas, alguns recebem entre três e cinco euros por dia e gastam parte desse valor apenas no transporte até as plantações.
A Coexphal, entidade que reúne produtores locais, afirma ter 38 mil estrangeiros formalmente contratados e sustenta que as condições de trabalho melhoraram. Ainda assim, organizações sociais denunciam moradias improvisadas sem água ou eletricidade e episódios de tensão racial em municípios como El Ejido, onde quase um terço da população é estrangeira.
Pressão sobre água e plástico
Ambientalistas alertam para a superexploração hídrica: as estufas consomem cerca de 130 hectômetros cúbicos de água por ano (1,3 bilhão de litros). O aquífero de Níjar é considerado sobrecarregado desde 2004. A Fundação Nova Cultura da Água defende redução da produção para preservar reservas num cenário de mudanças climáticas.
A Coexphal ressalta o uso predominante de irrigação por gotejamento e a diversificação de fontes, incluindo dessalinização e captação de chuva, o que – afirma – reduz em 60 % o consumo em comparação com outras áreas agrícolas.
Outro ponto crítico é o descarte de plástico. Estimativas apontam 30 mil toneladas de resíduos por ano, das quais apenas 85 % seriam recicladas. Produtores contestam e garantem reciclagem total do material das estufas, embora admitam falhas no controle de resíduos menores.

Imagem: g1.globo.com
Enquanto o “Mar de Plástico” segue como vitrine de produtividade e geração de divisas, especialistas insistem que o futuro de Almería depende de equilibrar resultados econômicos com proteção ambiental e garantia de direitos trabalhistas.
Estudos sobre o impacto dos microplásticos na fauna marinha regional podem ser consultados no portal da Agência Europeia do Ambiente, que monitora indicadores ambientais em todo o continente.
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Com informações de g1.globo.com
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