São Paulo, 26 de setembro de 2025 – O economista sérvio-americano Branko Milanovic, referência mundial em estudos sobre desigualdade, afirmou que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump inaugurou no país um modelo que ele classifica como “liberalismo de mercado nacional”. Em entrevista à BBC News Brasil, o professor da City University of New York explicou que, enquanto adota políticas neoliberais internamente, Trump recorre a medidas mercantilistas no cenário internacional.
Neoliberal por dentro, mercantilista por fora
Milanovic sustenta que, no plano doméstico, Trump reduziu impostos, flexibilizou regulações e defendeu um Estado menor – traços clássicos do neoliberalismo. Já na política externa, elevou tarifas de importação sobre produtos como farmacêuticos, móveis e caminhões pesados, inclusive de países emergentes como Brasil e Índia, rompendo com o livre-comércio tradicionalmente associado ao neoliberalismo.
Ascensão asiática e insatisfação ocidental
O economista antecipou temas de seu novo livro, The Great Global Transformation: National Market Liberalism in a Multipolar World, que será lançado em novembro nos EUA. A obra analisa como o crescimento de China, Índia, Indonésia e Vietnã redistribuiu poder econômico global, provocando frustração em classes médias de nações ricas e abrindo espaço para lideranças como Trump.
Brasil: reforma do Imposto de Renda em debate
Ao comentar a proposta de reforma do Imposto de Renda em tramitação na Câmara dos Deputados, Milanovic avaliou que a medida tende a diminuir ainda mais a desigualdade no país. O projeto amplia a faixa de isenção para até R$ 5 mil, concede desconto parcial sobre rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7,35 mil, e estabelece tributação progressiva de até 10% para quem ganha acima de R$ 600 mil por ano, além de taxar em 10% lucros e dividendos superiores a R$ 50 mil mensais, inclusive os remetidos ao exterior.
Para o economista, a resistência de parte do empresariado e dos mais ricos é “compreensível”, mas ele argumenta que temores de fuga de capitais costumam ser superestimados. “Frequentemente isso é usado como ameaça, mas não se concretiza, porque essas pessoas ainda lucram mais no Brasil do que enviando recursos para fora”, declarou.
Desigualdade em queda na América Latina
Milanovic destacou que, nas últimas duas décadas, a América Latina registrou forte redução da desigualdade, contrariando a tendência global. No Brasil, o coeficiente de Gini passou de cerca de 60 para a casa dos 48 pontos. Mesmo após ajustes para subnotificação de rendas altas, a queda persiste.
Segundo o pesquisador, a região foi exceção histórica porque a disparidade era “tão óbvia” que se tornou objeto de estudo contínuo, diferente de economias centrais onde, no auge da Guerra Fria, discutir classes sociais foi desestimulado.
Próximos passos
O projeto de reforma do IR recebeu urgência na Câmara, mas a votação foi adiada enquanto avança a PEC apelidada de “PEC da Blindagem”, que pretende limitar processos criminais contra parlamentares.
Dados globais sobre desigualdade, como o índice de Gini citado por Milanovic, estão disponíveis no portal do Banco Mundial.
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Em resumo, Branko Milanovic vê na combinação de política doméstica liberal e comércio externo protecionista de Trump um novo padrão econômico, ao mesmo tempo em que aponta oportunidades para o Brasil avançar no combate à desigualdade com a reforma tributária. Acompanhe nossas atualizações e participe do debate sobre os rumos da economia global.
Com informações de g1.globo.com
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