Exibida na noite de quinta-feira, 9 de outubro de 2025, a última reportagem da série do Jornal Nacional sobre alimentação em tempos de mudanças climáticas mostrou como sistemas agroflorestais vêm recuperando áreas degradadas, elevando a produção de cacau e criando oportunidades de receita com crédito de carbono.
No interior de São Paulo, o produtor Patrick Assumpção transformou a antiga fazenda do bisavô em um mosaico de árvores frutíferas, palmito e cacau. O trabalho, iniciado há 16 anos, aposta no consórcio de espécies que se ajudam mutuamente, sem o uso intensivo de adubos químicos. “Quando descobri um jeito menos agressivo de cultivar, virou estilo de vida”, disse Patrick.
Apesar do bom resultado em pequenas propriedades, a diversidade excessiva e a necessidade de mão de obra sempre dificultaram a expansão comercial das agroflorestas. A solução encontrada no sul da Bahia foi simplificar o arranjo e concentrar parte da produção no cacau.
Recuperação de áreas e renda escalonada
Em Camamu (BA), onde o fruto faz parte da história local, o produtor Marcelo Brandão viu a coleta despencar de 32 mil arrobas — cerca de 450 mil toneladas — para 9 mil arrobas após o avanço da vassoura-de-bruxa e a falta de investimento. Agora, uma parceria com a Belterra Agroflorestal já implantou 200 hectares de cacau, açaí e árvores nativas em solo antes degradado.
De acordo com o engenheiro agrônomo Tayrone Moreira, a receita é dividida por etapas: nos três primeiros anos, mandioca e banana geram caixa; a partir do quarto, entram cacau e açaí. Toda a biomassa das culturas cortadas é devolvida ao chão, dobrando a matéria orgânica do solo para até 4% em quatro anos. Esse enriquecimento permite reter até 40 mil litros de água por hectare durante a seca, explicou Valmir Ortega, fundador da Belterra.
Cacau valorizado e crédito de carbono
Com a queda da oferta global e o preço do cacau quintuplicado em dois anos, especialistas veem chance de o Brasil retomar protagonismo no mercado, desta vez com técnicas regenerativas. Ortega afirma ter captado R$ 500 milhões para ampliar o modelo que, além de frutos, estoca “centenas de toneladas de carbono por hectare” ao longo do ciclo.
O novo ativo é medido por tecnologias como o scanner LIDAR, testado por Patrick Assumpção numa startup incubada na fazenda. O equipamento gera uma nuvem de pontos que calcula o carbono armazenado em troncos e raízes com mais precisão que fotos aéreas.
“O carbono pode virar linha de crédito”, afirmou Patrick, enquanto Ortega defende que milhões de hectares só poderão ser manejados com tecnologia e investimento privado. Fundos nacionais e estrangeiros, segundo ele, já aportam recursos em projetos agroflorestais de grande escala.
Para especialistas, o país reúne biodiversidade e área suficiente para desenvolver novas cadeias de produtos florestais, fortalecendo culturas tradicionais como o cacau e contribuindo para a transição climática.
Em nota técnica, a Embrapa destaca que sistemas agroflorestais podem aumentar a produtividade e a resiliência das lavouras em cenários de instabilidade climática.
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Com informações de g1.globo.com
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