O historiador Henrique Carneiro, professor de História Moderna da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Laboratório de Estudos Históricos das Drogas e da Alimentação (Lehda), afirmou que o Brasil deveria criar um monopólio estatal para a distribuição de bebidas alcoólicas no atacado, nos moldes de modelos adotados no Canadá e na Suécia. A proposta, comparada por ele a uma “Petrobras do álcool”, foi apresentada em entrevista concedida após a recente crise de intoxicações provocadas por metanol.
Segundo o docente, o quadro atual expõe fragilidades de um sistema regulatório que classificou como “hiper liberal”, resultado de uma tradição econômica centrada na cana-de-açúcar. “Nunca houve restrições efetivas, o que abriu espaço para grandes conglomerados definirem preços e dominarem o mercado”, afirmou.
Crise do metanol
Até 15 de outubro, o Ministério da Saúde confirmou oito mortes — seis em São Paulo e duas em Pernambuco — e 41 casos de intoxicação por ingestão de bebida contaminada. Outras 107 ocorrências seguem em investigação; 469 notificações foram descartadas. O Estado de São Paulo concentra 61% dos registros.
Vantagens do modelo estatal
Carneiro argumenta que o monopólio permitiria:
- Direcionar integralmente a receita para o orçamento público, atendendo áreas como saúde e educação;
- Garantir controle de qualidade e rastreabilidade dos produtos;
- Regular pontos e horários de venda, além de restringir o acesso a menores de 18 anos.
O professor aponta ainda que 30% das bebidas destiladas no país são clandestinas e lembra o fim, em 2016, do Sistema de Controle de Produção de Bebidas (Sicobe), ferramenta que auxiliava na fiscalização. “É preciso retomar mecanismos de monitoramento e considerar a estatização da cadeia de atacado”, disse.
Outros modelos de regulação
Carneiro comparou três formatos existentes no mundo:
- Proibicionista — aplicado em países como Irã e Arábia Saudita;
- Hiper liberal — caso brasileiro, com forte presença de multinacionais;
- Controlador estatal — adotado no Canadá e já utilizado no Uruguai, onde o governo monopolizava bebidas e, atualmente, a cannabis.
Para o historiador, o modelo de monopólio traz “bônus” ao Estado sem gerar ônus financeiro, equilibrando contas públicas e ampliando a vigilância sanitária.
Ele acrescentou que a medida poderia se estender a outras chamadas “indústrias do vício”, como apostas, hoje exploradas pela iniciativa privada.
Na avaliação do professor, a redução pontual do consumo de álcool observada após o surto de metanol é positiva, mas depende de políticas permanentes de controle para se consolidar.
Apesar de defender fiscalização rigorosa, Carneiro discorda de proibições ao consumo em espaços abertos, regra comum no Canadá e nos Estados Unidos. Para ele, zonas de uso específico e restrições de horário seriam suficientes para reduzir violência e perturbação pública.
Questionado sobre a possível participação do crime organizado na adulteração de etanol com metanol, o professor destacou que facções têm ampliado o controle da cadeia produtiva e da distribuição clandestina, o que reforça a necessidade de um sistema estatal robusto.
O debate sobre novas formas de regulação ganhará relevância à medida que o país busca reduzir o impacto das bebidas alcoólicas na saúde pública.
Mais detalhes sobre intoxicações por metanol podem ser consultados na nota técnica do Ministério da Saúde, que reúne orientações a profissionais de saúde e dados de vigilância.
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Este conteúdo resume as principais declarações do professor e os números mais recentes divulgados pelas autoridades. Continue navegando e fique por dentro das próximas atualizações.
Com informações de g1
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