O que antes era considerado sobra de açougue virou um dos itens mais rentáveis para a avicultura brasileira. Em 2026, o quilo do pé de galinha no atacado paulista foi cotado, em média, a R$ 5,75 — valor 41,3% superior ao registrado em 2020, de acordo com levantamento do analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado. No varejo, o preço pode chegar a R$ 14, como relata a chef sino-brasileira Jiang Pu, que vive na zona sul de São Paulo e lembra da época em que o miúdo era distribuído gratuitamente pelos açougues em 1998.
China impulsiona faturamento
A abertura do mercado chinês à carne de frango brasileira, em 2009, alterou completamente o destino do produto. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), somente no ano passado a indústria nacional obteve US$ 221 milhões com o embarque de pés de galinha para a China, principal compradora do item. O montante representa crescimento de 9,5% em relação a 2024.
O presidente da ABPA, Ricardo Santin, afirma que o país asiático é o que melhor remunera o produto, pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada. Na segunda posição aparece a África do Sul, que desembolsa, em média, US$ 2 mil por tonelada. Embora em volume bem menor que o chinês, o mercado sul-africano quadruplicou as aquisições em 2025 frente a 2024, alcançando US$ 49 milhões.
Consumo diversificado
Na China, o pé de galinha é consumido principalmente como petisco. Embalado a vácuo e já temperado, o produto é vendido em lojas de rua, rotisserias, máquinas automáticas em estações de metrô e shoppings. Ainda pode entrar em saladas ou servir para engrossar caldos, graças ao elevado teor de colágeno que confere textura gelatinosa às sopas.
Além do gigante asiático, destinos como Hong Kong, Vietnã, Coreia do Sul e Filipinas também recebem carregamentos de menor porte. O hábito de aproveitar integralmente o animal tem raízes em períodos de escassez enfrentados pela população chinesa ao longo da história.
Tradição na África do Sul
Na África do Sul, o pé de galinha figura em pratos conhecidos como “walkie-talkie”, “runaway” ou “Maotwana”. A receita leva também a cabeça do frango e costuma ser bem cozida, lembrando ensopados mineiros, explica Mariana Bahia, da Câmara de Comércio Brasil–África do Sul. O prato é temperado com especiarias como curry, páprica, cúrcuma e gengibre, e frequentemente servido com “pap”, uma polenta de milho que complementa a refeição.

O consumo de miúdos no país africano está associado ao período colonial, quando a população negra tinha acesso restrito a cortes considerados nobres. A criatividade culinária transformou pés e pescoços em bases importantes da dieta local.
Indústria pet absorve excedente
Quando não é exportado, o pé de galinha encontra destino certo dentro do próprio Brasil. Conforme Santin, o item é processado para produção de farinhas utilizadas na alimentação de animais de estimação, segmento que cresce ano após ano.
A combinação entre demanda externa forte, ampliação da indústria pet e melhor valorização no mercado interno fez o pé de galinha deixar de ser resíduo para se tornar negócio multimilionário na cadeia de proteína animal brasileira.
Com informações de G1
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