Pela primeira vez, integrantes do governo federal avaliam abertamente a possibilidade de um acordo comercial parcial entre o Mercosul e a China. A mudança, revelada por dois altos funcionários brasileiros, rompe com a postura tradicional de vetar negociações formais com Pequim para proteger a indústria nacional.
Segundo esses interlocutores, o novo cenário internacional, marcado pelas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a diversos parceiros, levou Brasília a buscar maior diversificação de mercados. A proposta em discussão envolveria apenas algumas faixas tarifárias, o que, na avaliação de um dos responsáveis, já abriria espaço relevante para produtos do bloco no mercado chinês.
Declaração conjunta em Pequim
A sinalização de avanço ocorreu após a visita do presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, a Pequim. Em declaração divulgada na ocasião, Orsi e o presidente chinês, Xi Jinping, expressaram expectativa de que as negociações de livre-comércio entre China e Mercosul tenham início “o mais rápido possível”.
Caminho gradual
Embora um tratado amplo permaneça distante, o governo brasileiro passou a admitir um pacto limitado que contemple temas como cotas de importação, procedimentos alfandegários e regras sanitárias e de segurança. Um dos representantes envolvidos classificou as conversas como “altamente complexas” e evitou apontar setores que poderiam ser incluídos.
Resistências dentro do bloco
Qualquer avanço exige consenso entre todos os membros do Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além da Bolívia em processo de adesão. Essa exigência impõe desafios:
- Paraguai: mantém relações diplomáticas com Taiwan, o que complica, mas não inviabiliza, um entendimento com Pequim. Em 2025, o país importou US$ 6,12 bilhões em mercadorias chinesas. O presidente Santiago Peña declarou não se opor a um acordo desde que o vínculo com Taiwan seja respeitado.
- Argentina: sob o governo de Javier Milei, aproximou-se de Washington e busca apoio dos EUA para reformas econômicas. Especialistas veem possibilidade de resistência argentina a um tratado liderado pela China, pelo menos no curto prazo.
‘Nova dinâmica regional’
Para o pesquisador Ignacio Bartesaghi, da Universidade Católica do Uruguai, as políticas comerciais dos EUA durante a gestão de Donald Trump incentivam Pequim a fortalecer acordos na América do Sul. “Ideias que antes pareciam travadas agora podem avançar”, afirmou.
Apesar da cautela em relação ao impacto da capacidade industrial chinesa sobre fabricantes locais, investimentos de empresas da China na produção brasileira têm crescido — movimento que o Planalto deseja manter.
Os ministérios chineses das Relações Exteriores e do Comércio foram procurados, mas não comentaram o assunto.
Fonte: g1
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