Um texto de 7 mil palavras publicado no domingo pela Citrini Research — canal de finanças criado pelo investidor James van Gleek no Substack — foi apontado por analistas como o principal gatilho para a desvalorização expressiva de ações de tecnologia na segunda-feira (23/2). O material, que descreve um cenário hipotético de desemprego em massa e de um “PIB fantasma” impulsionado pela inteligência artificial, fez papéis de empresas de software como Datadog, CrowdStrike e Zscaler recuarem mais de 9%, enquanto a International Business Machines (IBM) caiu 13%, registrando seu pior desempenho diário desde 2000.
Relato fictício, impacto real
No texto, a Citrini Research se coloca no futuro, datando o relatório em 30 de junho de 2028. Ali se descreve uma economia com 10,2% de desemprego, queda de quase 40% no índice S&P 500 e substituição acelerada de trabalhadores de colarinho branco por agentes de IA. O documento admite ser apenas um “exercício mental”, mas sustenta que avanços na tecnologia levariam a ganhos de produtividade acompanhados de forte redução nos salários, configurando o chamado “PIB fantasma” — riqueza que cresce nas estatísticas, mas não se converte em poder de compra para a população.
A postagem também projeta um ciclo vicioso: melhorias constantes da IA reduziram quadros de pessoal, comprimiram o consumo e levaram as empresas a investir ainda mais em automação. Entre os setores listados como vulneráveis estão softwares corporativos, serviços financeiros, corretagem imobiliária e entregas, todos sujeitos a rupturas provocadas por aplicações autônomas.
Reações do mercado e críticas ao alarmismo
O efeito cascata não se limitou às empresas de software. American Express perdeu cerca de 7%; JPMorgan, Citigroup e Morgan Stanley recuaram mais de 4%; Mastercard e Visa cederam porcentuais semelhantes. Para Robert Armstrong, colunista do Financial Times, o episódio mostra a sensibilidade de um mercado “ansioso pelas perspectivas da inteligência artificial”. Já o Wall Street Journal destacou que argumentos hipotéticos foram capazes de derrubar o Dow Jones em 800 pontos.
Vozes dissonantes contestaram o tom apocalíptico. Na revista Fortune, o editor Nick Lichtenberg avaliou que o ensaio ignora a adaptabilidade humana e ressaltou que avanços tecnológicos tendem a realocar valor, não a destruí-lo. O CEO do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, classificou os temores como exagerados e afirmou que seu banco pretende usar a tecnologia a seu favor.
‘Ainda há tempo’, diz a Citrini
Ao final do documento, a Citrini Research lembra que o cenário descrito permanece fictício e que “esses ciclos negativos ainda não começaram”. Para a empresa, tanto investidores quanto a sociedade dispõem de uma janela para reavaliar premissas e agir de forma preventiva diante da evolução rápida da inteligência artificial.
Fonte: g1
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