Pequim – A escalada militar no Irã estrangulou o Estreito de Ormuz e acendeu o alerta global, mas a China aposta em um estoque sem precedentes de petróleo para driblar a escassez que já pressiona seus vizinhos asiáticos.
- Em resumo: Pequim acumulou até 900 milhões de barris, o equivalente a quase três meses de importação.
Por que as reservas chinesas viraram escudo?
Pequim aproveitou anos de preços baixos para encher tanques estatais e particulares, enquanto firmava acordos com Arábia Saudita, Irã e, mais recentemente, Rússia. Segundo analistas citados pela BBC, o país consome entre 15 e 16 milhões de barris diários, mas manteve compras acima desse ritmo apenas para abastecer depósitos estratégicos. Dados de institutos de estatística oficiais mostram incremento de 16% nas importações só no primeiro bimestre deste ano.
O colchão garante maior margem de manobra do que a de vizinhos que já racionam combustível, como Filipinas e Indonésia, e reduz o impacto imediato sobre logística, aviação e transporte rodoviário interno.
“As estimativas indicam que a China acumulou reservas de cerca de 900 milhões de barris, um colchão substancial em momentos de interrupção do fornecimento”, destaca Ole Hansen, estrategista do Saxo Bank.
O elo vulnerável de Pequim
Apesar do estoque robusto, o gargalo permanece: mais de 20% do óleo que entra no país tradicionalmente cruza Ormuz. Se o bloqueio persistir, a China terá de queimar reservas mais rápido, enquanto redireciona navios para rotas mais longas e caras ou aumenta o recebimento por oleodutos vindos da Sibéria.
O governo já sinalizou cautela, pedindo a refinarias que segurem exportações de derivados para segurar preços domésticos. Ainda assim, o China Daily reportou alta de 695 yuans na gasolina em plena crise, reflexo direto do barril beirando US$ 120.
Analistas lembram que o país avançou na diversificação energética: carvão responde pela maior parte da eletricidade e mais de metade da capacidade instalada já vem de fontes renováveis. Carros elétricos representam um terço das vendas de veículos novos e reduzem a dependência de gasolina, mas fertilizantes, plásticos e toda a cadeia petroquímica continuam atrelados ao petróleo.
No longo prazo, a aposta chinesa em eólicas, solares e na frota elétrica funciona como seguro; no curto, porém, a travessia de Ormuz ainda dita o preço que o gigante asiático pagará para manter a produção industrial e o transporte funcionando.
Crédito da imagem: Divulgação / Getty Images via BBC
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