RIO DE JANEIRO – O anúncio da Petrobras de um reajuste imediato de 54,6% no querosene de aviação (QAV) cria um efeito dominó que pode elevar em até 20% o preço das passagens no Brasil, segundo especialistas do setor ouvidos após a decisão divulgada em 1º de abril.
- Em resumo: QAV já acumula alta de 64% desde fevereiro e pressiona custos que representam 45% das despesas das companhias.
Por que o QAV disparou tão rápido?
O estreito de Ormuz, rota de um quinto do petróleo global, tornou-se ponto de tensão com a guerra no Irã. A incerteza elevou o Brent a cerca de US$ 99, quase 40% acima do nível pré-conflito, refletindo-se diretamente no QAV, derivado do petróleo.
No Brasil, a Paridade de Preço de Importação (PPI) amplifica o choque: mesmo produzindo 90% do combustível internamente, a Petrobras aplica valores atrelados ao mercado externo, incluindo variação cambial e custos hipotéticos de frete, como detalha o Banco Central.
“Em tempos normais, o combustível responde por 40% do custo das aéreas nacionais; agora já chega a 45%”, alerta a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).
Impacto imediato no bolso do passageiro
Se o repasse fosse integral, uma viagem em um A380 poderia ficar R$ 1,8 mil mais cara por passageiro. Embora improvável, analistas projetam alta média de 10% a 20% nos próximos meses. A recomendação é antecipar compras para o segundo semestre, já que redirecionamentos de rotas — adotados por segurança — prolongam voos em até 90 minutos, queimando ainda mais combustível.
Além do preço, há risco jurídico: desde novembro, processos por cancelamentos ligados a “fortuito externo” estão suspensos no STF. Em cenário de conflitos prolongados, passageiros podem ter menos respaldo caso voos sejam cancelados por motivos de guerra.
Socorro oficial e caminhos alternativos
O governo estuda reduzir tributos federais sobre o QAV e liberar crédito emergencial via Fundo Nacional de Aviação Civil. A longo prazo, a Lei do Combustível do Futuro impõe, a partir de 2027, o uso do Sustainable Aviation Fuel (SAF), biocombustível que pode diminuir a dependência de petróleo e da geopolítica do Oriente Médio.
Hoje o SAF custa de três a cinco vezes mais que o querosene comum, mas a diferença encolhe com o Brent em alta. “O Brasil tem potencial para ser a ‘Arábia Saudita do SAF’, graças à abundância de biomassa”, afirma Dany Oliveira, ex-IATA.
Crédito da imagem: Divulgação / Getty Images
Você pretende antecipar a compra das suas passagens ou vai esperar a poeira baixar? Acompanhe mais análises em nossa editoria de Economia.
Siga o SE Por Dentro e entre no nosso grupo de notícias.








