Brasília/DF – Sancionada na última terça-feira (31), a lei que expande a licença-paternidade no Brasil promete mexer diretamente no cálculo de risco que empresas fazem ao contratar e promover mulheres, ao distribuir o ônus do cuidado dos filhos.
- Em resumo: afastamento do pai sobe de 5 para 20 dias até 2029 e pode chegar a 120 dias se ele assumir o cuidado total da criança.
Por que a nova regra mexe no “custo” da maternidade
Hoje, grandes decisões de RH ainda partem da premissa de que apenas a mulher se afastará após o parto. Na prática, isso transforma gestação em “custo previsível” e trava promoções. Com a mudança, qualquer candidato – homem ou mulher – passa a representar o mesmo potencial de ausência, reduzindo o viés de gênero, explicam especialistas.
A cofundadora do Todas Group, Dhafyni Mendes, destaca que a redistribuição do cuidado “ataca a origem do preconceito”. Experiências internacionais confirmam o efeito: onde pais e mães têm direitos semelhantes, a disparidade de contratação cai.
“Na hora de contratar, o empregador sabe que tanto o homem quanto a mulher terão direito à licença. Isso evita aquela lógica de priorizar homens porque a mulher pode engravidar”, disse o jornalista Guga Chacra à GloboNews.
O que muda na folha de pagamento – e no topo da empresa
O benefício, rebatizado de salário-paternidade, será custeado pelo INSS, poupando caixa das companhias e criando estabilidade de 30 dias após o retorno do empregado. Para casos de falecimento da mãe, guarda unilateral ou internação prolongada, o pai terá afastamento idêntico ao da licença-maternidade, chegando a 120 ou 180 dias.
Com 20 dias garantidos, o Brasil salta da 80ª para perto da 20ª posição em rankings globais de tempo de licença. Ainda assim, países como Suécia oferecem 480 dias compartilhados. A diferença pesa: aqui, apenas 26,5% das posições de alta liderança são ocupadas por mulheres, que recebem 78,6% do salário dos homens e dedicam quase o dobro de horas ao trabalho doméstico.
A discussão tramitou por anos na Câmara dos Deputados até chegar ao texto final. Especialistas defendem que o próximo passo seja criar licença parental compartilhada, com parte intransferível para cada responsável – modelo que elevou a adesão dos pais em nações nórdicas.
Retenção de talentos femininos ainda exige política interna
Dados do eSocial indicam que, entre 2020 e 2025, mais de 383 mil brasileiras foram demitidas até dois anos após voltar da licença-maternidade. Outras 265 mil pediram as contas pelo mesmo motivo. Programas de carreira antes e durante o afastamento, mentoria no retorno e apoio à primeira infância são citados como ações de maior impacto na permanência dessas profissionais.
Neurociência aponta ainda que a maternidade potencializa competências como gestão do tempo e pensamento crítico – atributos estratégicos para a liderança. A nova lei, portanto, remove um obstáculo estrutural ao permitir que empresas avaliem mães pelo desempenho, não pela eventual ausência.
No cenário de competição por talentos qualificados, especialistas alertam: organizações que se anteciparem às práticas inclusivas tendem a ganhar vantagem real em inovação e reputação de marca.
Crédito da imagem: Divulgação
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