A Copa chegou e, com ela, a disputa por um símbolo que todo brasileiro conhece. Direita e esquerda brigam para 'tomar posse' da camisa canarinho em ano de eleição.
Em pleno ano de eleições municipais e com a Copa do Mundo mobilizando torcidas em todo o país, a tradicional camisa verde-amarela da Seleção Brasileira volta ao centro do debate político. Figuras de destaque na direita e na esquerda intensificam o uso do uniforme como ferramenta de comunicação com o eleitorado, numa tentativa de associar a própria imagem ao sentimento de patriotismo que costuma aflorar durante o torneio.
De um lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) chamou o manto canarinho de “camisa do Bolsonaro” em discurso para apoiadores, reforçando a narrativa de que sua família personifica o nacionalismo. Do outro, o presidente Lula (PT) publicou fotos nas redes sociais vestindo a mesma camisa e conclamou seus simpatizantes a adotarem as cores nacionais, mesmo que o vermelho seja a cor histórica do partido.
“Os marqueteiros de campanha, os estrategistas, seja de Flávio Bolsonaro, seja do presidente Lula, estão estudando como explorar isso ao máximo para colher o maior dividendo eleitoral possível”, avalia o analista político Matheus Teixeira.
O engajamento digital confirma a força desse símbolo. Postagens comuns de Lula costumam registrar menos de 10 mil curtidas, mas uma única foto do presidente com a camisa da Seleção ultrapassou 700 mil curtidas em um fim de semana. Na avaliação de Teixeira, a esquerda tenta mostrar que o verde e amarelo não pertence a apenas um campo ideológico.
Para além das redes sociais, a disputa envolve narrativas sobre soberania nacional. Lula tem mencionado possíveis tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros para destacar a necessidade de defesa dos interesses do país. Paralelamente, parlamentares petistas divulgaram imagens de manifestação de apoiadores de Bolsonaro em que aparece a bandeira dos EUA, questionando o patriotismo do grupo rival.
“De lado a lado, um busca argumentos para desgastar o outro e medir quem seria mais patriota”, resume Teixeira.
A politização da camisa da Seleção não surpreende estudiosos da cultura popular. O futebol, apontam, sempre exerceu papel central na construção da identidade brasileira e, consequentemente, no discurso político. Em Sergipe, onde o amor pela bola também fala alto, torcedores relatam sentimentos mistos: orgulho pela Copa e receio de ver o esporte virar palanque.
Enquanto a bola rola nos gramados internacionais, a arena política segue fervilhando fora deles. O uniforme que une o país em frente à televisão torna-se, simultaneamente, palco de uma partida paralela — esta, travada voto a voto, curtida a curtida.
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