Bruxelas – Manifestações com tratores em estradas, bloqueios a centros de distribuição e até esterco despejado na casa de praia do presidente francês, Emmanuel Macron, marcaram a reação de agricultores europeus ao acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, assinado em 17 de janeiro de 2026. De acordo com economistas ouvidos pelo g1, porém, o tratado aprofunda — mas não origina — o descontentamento do campo no bloco.
Produtores reclamam de custos e de novas exigências ambientais
Desde 2023, a União Europeia impôs regras ambientais mais rígidas para a agricultura. Entre elas, a meta de reduzir o uso de agrotóxicos, limitar emissões de carbono e avançar na transição energética. A lei de restauração ambiental, em vigor desde agosto de 2024, determina que até 20% dos ecossistemas nacionais sejam recuperados. Para agricultores que operam em propriedades menores que as brasileiras, isso significa perda de área produtiva e aumento de custos.
A guerra entre Rússia e Ucrânia também elevou preços de fertilizantes e outros insumos, agravando o cenário. “Está ficando difícil ganhar dinheiro”, resume Maurício Une, economista-chefe para a América do Sul do Rabobank.
Acordo comercial traz salvaguardas e cotas
No pacto UE-Mercosul, produtos considerados sensíveis — como carne bovina e frango — entram em regime de cotas, com volume limitado para usufruir de tarifas reduzidas. Além disso, se as importações de qualquer item agrícola crescerem 5% acima da média dos três anos anteriores, Bruxelas pode abrir investigação em até três meses — ou dois, para bens sensíveis — e suspender benefícios tarifários.
Uma cláusula adicional determina que países do Mercosul adotem as mesmas normas de produção exigidas na UE. Para Une, salvaguardas e cotas são rígidas o bastante para evitar uma “inundação” de produtos brasileiros.
Agricultura como patrimônio cultural
Com forte peso político, especialmente na França, o setor agrícola é visto como parte da identidade europeia. A Política Agrícola Comum (PAC) garante subsídios, preços mínimos e orçamento específico. Para conter o mal-estar recente, a Comissão Europeia adiantou cerca de € 45 bilhões do orçamento 2028-2034 para apoiar produtores.
Competitividade do Brasil preocupa, mas não explica tudo
Embora reconheçam a produtividade brasileira, analistas lembram que o mercado europeu já é dominado por produtores locais, que operam com custos mais altos e menores rendimentos por hectare. “O acordo potencializa o sentimento de ameaça, mas a raiz do problema está nas novas regras ambientais”, avalia Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre.
Exemplo do valor agregado europeu é o presunto de Parma, protegido por indicação geográfica: somente produtores da região italiana podem usar o nome, blindando o produto contra concorrência externa.
À medida que discussões avançam no Parlamento Europeu, agricultores prometem manter a pressão. “Sempre que se sentem ameaçados, levam os tratores para Paris”, lembra Valls.
Para detalhes sobre a Política Agrícola Comum, consulte a página oficial da Comissão Europeia.
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O descontentamento no campo europeu vai além do acordo com o Mercosul e reflete pressões ambientais, econômicas e culturais sobre um setor historicamente protegido. Continue acompanhando nossos conteúdos para entender como essas mudanças afetam o comércio global e o agronegócio brasileiro.
Com informações de g1
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