Visionário. Essa é a palavra que melhor define o sergipano Carlos Magalhães, radialista que, aos 88 anos, segue ditando tendências no rádio esportivo local. De transmissões por telefone improvisado em 1969 à cobertura remota via internet na Copa do Mundo de 2010, sua trajetória mostra que inovação e planejamento caminham juntos quando o objetivo é conquistar audiência e credibilidade.
Em 17 de junho de 1969, data de inauguração do Estádio Governador Lourival Baptista, o Batistão, Sergipe ainda não contava com a infraestrutura da Embratel. Mesmo assim, Magalhães conseguiu fazer chegar ao restante do país a festa que marcava uma nova fase do futebol no estado. Ele coordenou a instalação de uma linha telefônica emergencial, ligando Aracaju a centros retransmissores em outras capitais.
“Na época não tinha Embratel em Sergipe. Nós conseguimos montar uma linha telefônica e transmitimos para o Brasil inteiro”, relembra.
O episódio virou símbolo de criatividade, mas não foi caso isolado. Ao longo das décadas seguintes, o radialista colecionou investimentos inéditos na praça: microfones sem fio, sistemas de áudio importados e estúdios móveis. Quando muitos veem gastos, ele enxerga ferramentas de crescimento. A filosofia de reunir profissionais qualificados e equipamentos modernos sustentou uma equipe que logo se tornou referência no estado.
Com a profissionalização do mercado e a consequente retração de verbas nas emissoras, Magalhães criou um modelo de negócio independente: arrendar horários de grade, comercializar patrocínios próprios e reinvestir parte da receita em tecnologia. O controle financeiro rigoroso era vital.
“Ele tinha primeiro a obrigação com a emissora. O custo maior era justamente a locação do horário”, explica o contador Luiz Santana, que acompanhou de perto o planejamento.
A prova de fogo viria em 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul. Em vez de enviar equipe ao exterior, o grupo montou um estúdio em Aracaju e usou o Skype para narrar partidas no formato off-tube. O custo total, segundo Magalhães, ficou em apenas R$ 2 mil.
“Fizemos toda a Copa montando um estúdio em Aracaju e realizando tudo off-tube com Skype”, conta o radialista.
A ousadia rendeu elogios de figuras do meio. Para o ex-diretor de rádio Messias Carvalho, essa postura que mistura “determinação, ousadia e coragem” mantém viva a tradição esportiva sergipana.
O presidente da Federação Sergipana de Futebol, Milton Dantas, reforça essa impressão.
“Mesmo com mais de 80 anos, ele continua atuando em prol do futebol sergipano, transmitindo jogos, inovando e acompanhando as transformações tecnológicas. Isso demonstra compromisso e paixão pelo esporte”, afirma.
A influência de Magalhães vai além dos microfones. Ele formou gerações de repórteres e narradores, incentivando cursos, oficinas e parcerias com faculdades de Comunicação em Aracaju. Hoje, seus ex-alunos ocupam redações, estúdios e sites esportivos de todo o Brasil.
Em 30 de maio de 2026, data em que esta reportagem foi publicada, Magalhães seguia no estúdio, ajustando cabos de transmissão digital e orientando jovens estagiários sobre ritmo, precisão de dados e respeito ao torcedor. Para quem já desafiou limitações técnicas antes mesmo da internet, a próxima fronteira talvez seja a inteligência artificial.
Enquanto novas plataformas surgem, o recado que sai dos alto-falantes é claro: evoluir é parte do jogo — e Carlos Magalhães continua marcando presença no ataque.



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