BUENOS AIRES – Promessas de socorro financeiro vindas da Casa Branca ainda não foram suficientes para conter a pior fase do presidente argentino Javier Milei desde a posse, em dezembro de 2023. Entre agosto e o fim de setembro, o líder da A Liberdade Avança acumulou denúncias de corrupção, perdeu força nas urnas, viu sua popularidade recuar e enfrentou derrotas sucessivas no Congresso.
Promessa de US$ 20 bilhões não muda humor interno
No dia 22 de setembro, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou a disponibilidade de um pacote de US$ 20 bilhões para a Argentina e classificou o país como “aliado sistematicamente importante”. Dois dias depois, o ex-presidente Donald Trump garantiu “apoio completo e total” à reeleição de Milei e agendou um encontro para 14 de outubro, na Casa Branca. Analistas locais, porém, consideram que a ajuda ainda carece de detalhes e pouco influencia o eleitorado argentino.
Denúncias atingem o núcleo do governo
O desgaste começou em agosto, quando áudios vazados implicaram Karina Milei — secretária-geral da Presidência e irmã do mandatário — em um suposto esquema de propinas envolvendo a Agência Nacional de Pessoas com Deficiência (Andis) e empresas farmacêuticas. O então diretor do órgão, Diego Spagnuolo, falava em cobrança de até 8% do faturamento das farmacêuticas para garantir contratos. Spagnuolo acabou demitido, e a Câmara dos Deputados abriu comissão para investigar o caso.
Reveses eleitorais em Buenos Aires
No início de setembro, a chapa governista foi derrotada na maior província do país. A coalizão oposicionista Força Pátria, liderada pelo governador e kirchnerista Axel Kicillof, superou o partido de Milei por 13 pontos percentuais. A província concentra quase 40% do eleitorado argentino e a derrota ampliou o pessimismo sobre o desempenho governista nas eleições legislativas nacionais de 26 de outubro.
Aprovação em queda
Pesquisa Bloomberg/AtlasIntel, realizada entre 10 e 14 de setembro, mostrou desaprovação de 53,7% ao presidente, contra 42,4% de aprovação — pior marca desde a posse. Levantamento da Universidade Di Tella registrou, pela primeira vez, índice de confiança abaixo de 2 pontos (1,8) em escala de 1 a 5.
Economia parada e custo de vida alto
Milei reconheceu em entrevista recente que a economia está “paralisada”. Embora a inflação tenha caído de 211,4% em 2023 para 117,8% em 2024, o salário mínimo perdeu 30% do poder de compra e o desemprego permanece em 7,6%. Cortes de subsídios elevaram tarifas de transporte, água e energia, enquanto o esperado aumento de investimentos externos ainda não se concretizou.
Derrotas no Congresso
Com apenas 37 das 257 cadeiras da Câmara e seis dos 72 assentos no Senado, o governo sofreu 40 derrotas legislativas desde março. A mais recente ocorreu em 17 de setembro, quando deputados derrubaram o veto presidencial a recursos adicionais para universidades públicas; o placar foi de 174 votos contra o governo e 67 a favor.
Especulações sobre a sobrevivência política
Adversários como o senador José Mayans (União pela Pátria) chegaram a declarar que “o governo está acabado”. Integrantes do Executivo reagiram, acusando a oposição de tentar um “golpe suave”. A eleição legislativa de 26 de outubro, tradicionalmente vista como plebiscito de meio de mandato, será o próximo teste para avaliar se Milei conseguirá reverter o cenário adverso antes de completar 55 anos, em 22 de outubro.
O presidente aposta no encontro com Trump e no alívio prometido pelo Tesouro norte-americano para tentar recuperar capital político e avançar com sua agenda de ajustes, mas analistas afirmam que a sustentabilidade do governo dependerá da capacidade de recompor apoio no Congresso e de apresentar resultados econômicos perceptíveis à população.
Dados mais recentes sobre inflação e atividade podem ser consultados diretamente no Banco Central da República Argentina (BCRA), órgão responsável pela política monetária do país.
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Com informações de G1
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