BUENOS AIRES – Às vésperas das eleições legislativas deste domingo (26/10), a crise econômica na Argentina empurra cada vez mais moradores de bairros populares a comercializar roupas usadas, eletrodomésticos desmontados e até objetos recolhidos no lixo para complementar a renda.
Feira cresce em Villa Fiorito
O movimento é visível em Villa Fiorito, periferia de Buenos Aires onde nasceu Diego Maradona. Em mais de 20 quarteirões, barracas de verduras e ferramentas dividem espaço com os “manteros” — vendedores que estendem mantas no chão para expor itens pessoais, achados nas ruas ou mercadorias compradas com empréstimos.
Gladys Gutiérrez, 46 anos, está entre os que recorreram à feira. “Nos fins de semana, quando não ganho o suficiente em casa, venho aqui para ‘estender a manta’”, conta a vendedora de roupas e perfumes. Durante a semana, ela comercializa produtos de limpeza, mas a queda no poder de compra dos vizinhos a levou a contrair um empréstimo para vender frios e bebidas. O marido, pedreiro, está desempregado.
Inflação em queda, renda em baixa
Em quase dois anos de mandato, o presidente Javier Milei conseguiu reduzir a inflação em ritmo acelerado. O ajuste, porém, envolveu paralisação de obras públicas e retração nos setores de comércio e indústria — justamente os maiores geradores de emprego. A informalidade já alcança cerca de 40% da população economicamente ativa.
Pesquisa da consultoria Aresco mostra que três em cada quatro argentinos dizem ter mais dificuldade para fechar as contas do que em 2023. O economista Guillermo Oliveto relata que 70% da população, formada pela classe média baixa e trabalhadora, “termina o mês no dia 15”, quando o dinheiro se esgota.
Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) confirmam o avanço do endividamento, sobretudo para a compra de alimentos.
Recordações de 2001
Entre bancas improvisadas, o cheiro de churrasco se mistura ao odor do lixo acumulado. “Lembra muito 2001”, diz a feirante Juana Sena, 71 anos, citando a crise que provocou protestos em massa no país.
Em Fiorito, tradicional reduto peronista, Milei obteve 27% dos votos no segundo turno presidencial de 2023, mas caiu para 16% nas legislativas provinciais de setembro.
Dívida para comer ou empreender
O cientista político Matías Mora observa que o pluriemprego e o comércio informal não começaram na gestão atual, mas foram aprofundados. Ele destaca que agiotas locais cobram juros mensais entre 40% e 50%. Um estudo do centro IETSE revela que nove em cada dez famílias estão endividadas, sendo 88% das dívidas contraídas entre 2024 e 2025; 58% dos gastos no cartão de crédito foram destinados a alimentos.
Mora cunhou o termo “manteros digitais” para quem vende pelas redes sociais. “As pessoas se viram usando criatividade para chegar ao fim do mês, mas à custa da saúde física e mental”, resume.
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Com informações de G1




