O número de navios comerciais abandonados pelos proprietários deu um salto expressivo e alcançou 410 casos em 2025, segundo levantamento da International Transport Workers’ Federation (ITF). Em 2016, a entidade havia registrado 20 ocorrências.
Os dados mostram que 6.223 marinheiros foram afetados no ano passado, volume quase um terço maior que o apurado em 2024. De acordo com a ITF, situações assim deixam tripulações sem salários, víveres, combustível ou possibilidade de desembarque — condição que se enquadra no conceito de abandono definido pela Organização Marítima Internacional (IMO).
Petroleiro à deriva com carga russa
O drama de Ivan (nome fictício) ilustra o problema. Oficial de convés de um petroleiro fundeado fora das águas territoriais da China, ele relatou falta de carne, grãos e peixe durante semanas. A embarcação, mantida anônima para preservar a segurança da tripulação, transporta cerca de 750 mil barris de petróleo russo avaliados em US$ 50 milhões.
O navio partiu do Extremo Oriente russo rumo à China no início de novembro e foi declarado abandonado em dezembro, depois que a equipe informou meses sem pagamento de salários. Sob escrutínio internacional, a embarcação permanece em águas internacionais e ainda não recebeu autorização para atracar em porto chinês.
A ITF conseguiu assegurar a quitação dos vencimentos até dezembro e viabilizou o envio de alimentos, água e itens básicos. Alguns tripulantes foram repatriados, mas a maior parte, entre eles Ivan, segue a bordo à espera de solução. Os salários atrasados somavam cerca de US$ 175 mil na primeira intervenção sindical.
Origem do aumento
Para a federação sindical, conflitos em diversas regiões e desarranjos logísticos provocados pela pandemia contribuíram para o salto nos abandonos. Outro fator é o crescimento das chamadas “frotas fantasmas”, compostas por navios antigos, de posse obscura, sem seguro e operando sob bandeiras de conveniência — registros em países com fiscalização limitada.
Nesse modelo, Panamá, Libéria e Ilhas Marshall respondem juntos por 46,5% da tonelagem mercante mundial. A Gâmbia tornou-se um novo polo: em 2023 não havia petroleiros registrados no país; em março do ano passado, já eram 35.
Em 2025, 337 dos 410 navios abandonados (82%) içavam bandeiras desse tipo. A existência de proprietários difíceis de rastrear amplia a exposição das tripulações a violações trabalhistas e de segurança, avaliam sindicatos.
Prejuízo trabalhista
Levantamento conjunto da IMO e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula em US$ 25,8 milhões o total de salários retidos no ano passado. A ITF afirma ter recuperado US$ 16,5 milhões — quase dois terços do montante.
Os indianos formaram a nacionalidade mais afetada, com 1.125 marinheiros (18%). Na sequência vieram filipinos (539) e sírios (309). Em setembro, o governo da Índia colocou 86 navios estrangeiros na lista negra por abandono de tripulações e outras violações, após constatar que muitos proprietários eram impossíveis de localizar ou não respondiam às autoridades de bandeira.
Críticas às bandeiras de conveniência
Mark Dickinson, secretário-geral do sindicato Nautilus International, responsabiliza os países que oferecem registros flexíveis por “abdicar” do dever de zelar pelas embarcações e seus trabalhadores. Para ele, é necessário reforçar o “vínculo genuíno” entre proprietário e bandeira, conceito já previsto no direito marítimo mas sem definição prática unificada.
No caso do petroleiro onde Ivan trabalha, o navio içava originalmente uma bandeira gambiana falsa. Recentemente, recebeu aceitação provisória de outro país africano, que abriu investigação formal. O inspetor da ITF Nathan Smith acredita que o impasse só terminará após a transferência ship-to-ship do petróleo em alto-mar.
À espera de repatriação, Ivan planeja redobrar a cautela na próxima contratação. “Vou analisar melhor as condições do navio, o pagamento e as provisões. E pesquisar na internet quais embarcações estão sob sanções ou proibidas”, disse.
Fonte: g1
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