Aracaju (SE) – Silencioso e protegido, o Centro de Referência no Atendimento Infantojuvenil de Sergipe (Crai/SE), anexo à Maternidade Nossa Senhora de Lourdes (MNSL), tornou-se ponto de recomeço para crianças e adolescentes de 0 a 18 anos e 11 meses que sofreram violência sexual. A unidade, primeira do Norte e Nordeste e segunda do Brasil com estrutura física exclusiva e equipe especializada, superou 20,6 mil atendimentos em três anos de funcionamento.
Fluxo humanizado evita revitimização
Em média, seis novos casos chegam ao serviço diariamente. Antes da criação do Crai, o atendimento ocorria na própria maternidade, misturado a outros procedimentos. De acordo com a gerente, enfermeira Angélica Machado de Aragão, o fluxo é diferenciado, garante privacidade e integra profissionais para que a vítima não repita sua história.
O quadro conta com ginecologistas, assistentes sociais, psicólogas e agentes policiais responsáveis pelo registro do boletim de ocorrência e pela solicitação de perícias. “Dispomos de equipe preparada para acolher de forma completa, sem exposição desnecessária”, explica a gestora.
Equipe predominantemente feminina
Para reduzir constrangimentos, os atendimentos são feitos, preferencialmente, por mulheres. “A abordagem fica mais fácil, sobretudo quando é necessário o exame físico”, detalha Angélica.
Ambiente lúdico e segura
Logo na entrada, o espaço lúdico dialoga com a linguagem infantil. Brinquedos e materiais adequados criam um ambiente onde a confiança pode ser restabelecida. “A criança chega fragilizada e precisa se sentir segura para brincar, falar e confiar”, ressalta a gerente.
Números expressivos
Somente em 2025 foram registrados 7.585 atendimentos, entre consultas médicas, psicologia, serviço social, enfermagem, administração de medicamentos, coleta de material, perícias e confecção de boletins de ocorrência.
Atendimento porta aberta
O Crai funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, sem necessidade de encaminhamento. Famílias, Conselho Tutelar, delegacias, escolas e unidades de saúde podem encaminhar os casos. Violências ocorridas até 72 horas recebem atenção imediata; situações com mais tempo são agendadas para avaliação completa.
Quando necessário, são administrados antirretrovirais para prevenir HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. Todo o processo é sigiloso: prontuários e registros psicológicos permanecem restritos à equipe.
Rede integrada de proteção
Após o atendimento inicial, a criança segue vinculada à Atenção Primária do município de origem para acompanhamento próximo de casa. O Crai integra a Rede de Cuidado e Proteção Social de Sergipe, articulando SES, SSP, Seasic, Ministério Público do Trabalho, Tribunal Regional do Trabalho, MPSE e demais órgãos. No próprio centro é possível registrar boletim de ocorrência e solicitar perícia, evitando deslocamentos adicionais.
Sinais de alerta
Assistentes sociais apontam que a maioria dos abusos acontece dentro do ambiente familiar. Mudanças repentinas de comportamento, insônia, recusa em visitar determinados parentes ou queda no rendimento escolar são sinais comuns, segundo a psicóloga Marluce Santos.
Tratamento psicológico prolongado
O acompanhamento psicológico dura, em média, seis meses e pode se estender, inclusive com apoio psiquiátrico. “Trabalhamos para que a lembrança se transforme em cicatriz, sem sangrar”, afirma a profissional.
Serviço
Em casos emergenciais nos fins de semana ou feriados, a orientação é procurar hospitais, UPAs, Delegacias de Atendimento a Grupos Vulneráveis, Conselho Tutelar ou ligar 181, 190, Disque 100 ou CVV 188. Contatos do Crai: (79) 3225-8650, (79) 3225-8654 e crai.se.mnsl@gmail.com.
Informações sobre o enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes também estão disponíveis no site do Ministério dos Direitos Humanos.
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O Crai mostra que, embora imprescindível, o acolhimento especializado ainda precisa ser ampliado para que nenhuma criança ou adolescente enfrente sozinho as consequências da violência.
Com informações de saude.se.gov.br




