São Paulo – Entrevistar-se com um robô deixou de ser ficção científica e já faz parte da rotina de quem procura emprego no país. O economista Everton Freire, 33 anos, sentiu isso ao avançar para a segunda fase em uma empresa de educação na área da saúde: em vez de um recrutador humano, encontrou uma inteligência artificial (IA) que conversava por voz no WhatsApp. Depois de três ou quatro interações, recebeu retorno imediato dizendo que seu perfil se encaixava, mas não foi chamado para a etapa seguinte.
Por que as companhias adotam a tecnologia
Especialistas atribuem a popularização das entrevistas por IA à avalanche de currículos nas plataformas de emprego e redes como LinkedIn. “Foi preciso controlar o volume e agilizar o recrutamento”, explica Humberta Silva, professora da Hochschule Bremen e doutora pela FEA-USP. A pandemia acelerou essa digitalização e abriu espaço para chatbots, sistemas de ranqueamento e análise automática de vídeo e áudio.
Para o professor do Insper Edison Audi Kalaf, a principal vantagem está na escalabilidade aliada à redução de vieses humanos. Já as startups brasileiras Recrut.AI, DigAI, Starmind e Coploy, que fornecem esses serviços, citam cortes de custos, padronização e feedback mais rápido aos candidatos.
Riscos apontados por pesquisas acadêmicas
Tese de doutorado defendida em 2024 por Humberta Silva ressalta que benefícios como padronização ainda não superam problemas, entre eles:
- Ênfase exagerada em palavras-chave, obrigando candidatos a usar termos específicos;
- Exigência de conexão estável e formatação padronizada de currículo;
- Falta de aviso claro de que existe IA no processo, comprometendo a transparência.
Outro estudo, da FGV, ouviu 12 recrutadores do setor farmacêutico; eles reconhecem que a ferramenta pode excluir perfis e “perder talentos” se não for bem calibrada.
Testes mostram foco em termos técnicos e detecção de respostas prontas
Em testes feitos pela BBC News Brasil, as plataformas criam descrições de vagas automaticamente e entregam ao recrutador um ranking com notas e gravações. Um dos softwares penalizou candidatos que não citaram “SEO” — mesmo sendo vaga júnior. Em outra situação, um participante respondeu usando textos do ChatGPT e obteve nota 7/10; o sistema, porém, sinalizou “provável leitura” das respostas.
Aspectos legais e projeto de lei no Senado
O advogado Rafael Bispo de Filippis, do escritório Mattos Filho, lembra que, embora não exista lei específica, as normas contra discriminação continuam valendo. Se o algoritmo tiver viés, a empresa poderá ser acionada na Justiça. Ele recomenda contratos com cláusulas de reparação junto às fornecedoras de IA e armazenamento das entrevistas.
O tema deve ganhar novas diretrizes após a aprovação, no Senado, do projeto de lei que busca regulamentar a inteligência artificial, garantindo direitos como transparência e correção de vieses. O texto ainda precisa passar na Câmara dos Deputados.
Enquanto a regulamentação não avança, candidatos relatam sensação de distanciamento. “Desumaniza o processo”, afirma Everton Freire. Empresas, por sua vez, enxergam o uso de robôs como “caminho sem volta” para lidar com prazos curtos e altos volumes.
Com informações de g1
Dados oficiais sobre o andamento do projeto de lei que trata da IA podem ser consultados no site do Senado Federal.
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