São Paulo (SP) – Afastar o gado da lista dos principais vilões do desmatamento amazônico tornou-se o objetivo do veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca, 58. Em 2002, ele deixou o cargo de professor concursado na Universidade de São Paulo (USP) para viver em Alta Floresta (MT), à época uma das frentes de avanço sobre a floresta. O passo deu origem a um modelo de pecuária intensiva que, segundo o pesquisador, reduz emissões de carbono e diminui a pressão por novas derrubadas.
Da sala de aula às fazendas
Fonseca, doutor em Reprodução Animal e pós-doutor pela University of Kentucky (EUA), passou seis anos imerso na região. Primeiro, criou a Ouro Verde, voltada à extração sustentável de castanha-do-pará com comunidades locais. Depois, fundou a gestora Kaeté Investimentos para captar recursos a projetos florestais. Em 2019, formou a holding Caaporã, que hoje administra 20 mil hectares em seis fazendas distribuídas por Mato Grosso, Tocantins e Bahia.
Como funciona o sistema
A estratégia começa pela recuperação de pastagens degradadas. Nesses locais, o solo recebe leguminosas, como o amendoim forrageiro, capazes de fixar nitrogênio naturalmente e reduzir a dependência de ureia importada da Rússia. Árvores nativas e exóticas – entre elas eucalipto e paricá – fornecem sombra, diminuem o estresse térmico do rebanho e possibilitam engorda mais rápida.
Com o manejo regenerativo, o tempo até o abate cai de quatro para cerca de dois anos. A conta ambiental, afirma Fonseca, também muda: cada quilo de carcaça responde por cerca de 20 kg de CO₂, ante 35 kg no sistema extensivo tradicional – redução superior a 40%.
Impacto e obstáculos
Estudo do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostra que, em 2023, 75,6% do metano emitido no Brasil veio do agronegócio, 98% da pecuária. A área de pastagens na Amazônia saltou 363% entre 1985 e 2023, de 12,7 milhões para 59 milhões de hectares, segundo o MapBiomas.
Apesar dos ganhos ambientais, o modelo enfrenta desafios. A restauração do solo exige capital e conhecimento técnico. Para viabilizar economicamente a operação, a Caaporã desenvolve, junto à certificadora Verra, metodologia para comercializar créditos de carbono. Parte do gado é vendida à Minerva Foods, que afirma incentivar fornecedores a adotar práticas de baixa emissão.
Consumo em alta
Projeção conjunta da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da FAO indica aumento de 10% no consumo mundial de carne bovina até 2033. Diante da tendência, Fonseca descarta que alternativas como carne cultivada substituam o produto in natura no curto prazo e defende a transformação do sistema de produção.
“Se conseguirmos repetir este modelo em larga escala, milhões de hectares de pastagens pouco produtivas poderão ser liberadas para restauração florestal”, resume o veterinário.
Detalhes sobre boas práticas de pecuária de baixa emissão podem ser encontrados no portal da Embrapa.
Para saber como outras iniciativas sustentáveis vêm sendo implementadas na região, visite a seção Destaques do nosso site.
O avanço de um sistema que alia produção e conservação mostra que há caminhos para manter a floresta em pé e atender à demanda global por proteína animal. Acompanhe nossas publicações e fique por dentro das soluções que já estão em campo.
Com informações de G1
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