Betim e Contagem (MG) – Duas ações da Secretaria de Inspeção do Trabalho expuseram um esquema de costura que mantinha 29 imigrantes bolivianos em condições análogas à escravidão enquanto abastecia as marcas Anne Fernandes e Lore.
- Em resumo: jornada de até 68 h semanais e salário por peça que chegava a apenas R$ 3.
Do aliciamento à dívida impossível
As investigações começaram após denúncias ao Disque 100 e revelaram que um conterrâneo recrutava os bolivianos ainda na origem, prometendo trabalho regular. Ao chegarem, eram forçados a jornadas que começavam às 6h e avançavam pela madrugada, inclusive com dados oficiais sobre exploração de trabalho envolvendo menores.
O pagamento era feito por produção, mas com descontos de moradia, alimentação e passagem internacional, criando um ciclo de servidão por dívida impossível de ser quitada.
“Chegamos a registrar peças pagas a R$ 3, enquanto a mesma jaqueta aparecia nas vitrines por quase R$ 10,7 mil”, descreve o relatório dos auditores.
Condições degradantes e risco de incêndio
Os trabalhadores viviam nos fundos das próprias oficinas, em quartos superlotados. Instalações elétricas improvisadas, materiais inflamáveis espalhados e calor intenso compunham o cenário. Em um imóvel, o bebedouro estava apoiado sobre um vaso sanitário.
Sem registro em carteira, todos ficaram sem FGTS, INSS e sequer recebiam o salário mínimo. Iniciantes chegavam a embolsar R$ 1.200 mensais, valor corroído por descontos abusivos.
Responsabilidade das marcas e possíveis sanções
Auditores afirmam que Anne Fernandes e Lore ditavam modelos, preços e prazos, mantendo as oficinas economicamente dependentes. As empresas podem ser incluídas na “lista suja”, sofrer multas, reconhecer vínculo com os costureiros e pagar verbas rescisórias que, em um dos casos, já somam mais de R$ 130 mil.
Em nota, a Lagoa Mundau, dona da Anne Fernandes, atribuiu a violação a um fornecedor autônomo e informou ter rescindido o contrato em 2025, mas contestou a autuação.
Denúncias de trabalho escravo podem ser feitas de forma anônima pelo Sistema Ipê, canal oficial da Secretaria de Inspeção do Trabalho.
Crédito da imagem: Divulgação / Auditoria-fiscal do Trabalho
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