Engenheiros, oceanógrafos e jovens sem diploma universitário vêm desembarcando em Londres em busca de oportunidades que não encontraram no Brasil, mas acabam assumindo postos no setor de limpeza, muitas vezes sem documentação adequada. A capital britânica, fora da União Europeia desde 2020, oferece vagas como cleaner, função que se tornou a principal porta de entrada para esses trabalhadores.
Diplomas difíceis de validar
A engenheira civil paraibana Lívia, 28 anos, chegou há um ano com visto de turismo para estudar inglês. Mestre pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela enfrentou custos altos e demora para validar o diploma e, por isso, passou a trabalhar de forma irregular. Entre suas atividades esteve a limpeza de casas e de uma escola, recebendo 12,20 libras (R$ 88) por hora.
O oceanógrafo Wagner, também de 28 anos, deixou Porto Alegre há três anos. Sem visto adequado, ele alternou trabalhos como autônomo — entre 10 e 13 libras (R$ 72 a R$ 94) por hora — e hoje atua em um hotel, contratado por agência, com salário mensal de cerca de 2 mil libras (R$ 14,4 mil). Dor nas costas, rotina 6×1 e medo constante de deportação fazem parte do cotidiano.
Situação de vulnerabilidade
A goiana Fabiana, 24 anos, migrou durante a pandemia e atualmente trabalha como doméstica em uma casa de família, das 8h30 às 19h. A cliente paga 16,50 libras (R$ 119) por hora; ela fica com 11 libras (R$ 79) após a comissão da agência. O salário mensal gira em torno de 2,2 mil libras (R$ 15,9 mil), mas mais da metade é consumida pelo alto custo de vida londrino. Sem ensino superior, não consegue regularizar o visto e vive sob “vigilância permanente”.
Sobrequalificação e “rebaixamento”
A pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, define o fenômeno como “paradoxo da sobrequalificação migrante”: diplomas estrangeiros raramente são reconhecidos e o status migratório restringe vagas. Tânia Tonhati, da Universidade de Brasília, lembra que brasileiros qualificados já migram ao Reino Unido desde os anos 1990, mas o Brexit encareceu e restringiu processos, agravando a precarização.
Pressão por fiscalização
Dados do Home Office indicam 10.031 operações contra trabalho ilegal entre julho de 2024 e junho de 2025, alta de 48% em um ano. No mesmo período, 7.130 prisões e 2.105 multas a empregadores foram registradas; punições podem chegar a 60 mil libras (R$ 432,4 mil) por trabalhador. O governo oferece até 3 mil libras (R$ 21,6 mil) a quem aceitar retorno voluntário. Brasileiros responderam por 18% dos 26.761 retornos em 12 meses.
Peso do mercado de limpeza
O British Cleaning Council calcula que o setor de limpeza, higiene e resíduos movimentou 66,9 bilhões de libras (R$ 482 bilhões) em 2022, empregando 1,49 milhão de pessoas — 60% imigrantes na região de Londres. Marcel aponta que grande parte trabalha sem contrato, recebendo em dinheiro e sujeita a dispensa imediata.
Enquanto buscam estabilidade, profissionais como Lívia, Wagner e Fabiana seguem divididos entre o salário em libras e o medo de serem descobertos. Para eles, reconhecer que “todo trabalho é digno” ajuda a enfrentar jornadas exaustivas, ainda que signifique deixar diploma e carreira para trás.
Com informações de g1
O governo britânico detalha os requisitos do visto skilled worker — principal modalidade para estrangeiros — em seu portal oficial, indicando salário mínimo anual de 41,7 mil libras, reduzido para 30.960 libras em casos específicos. Mais informações estão disponíveis no site do Home Office.
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