O Flamengo anunciou nesta terça-feira (3) a demissão do técnico Filipe Luís, horas depois da goleada por 8 a 0 sobre o Madureira pela semifinal do Campeonato Carioca. O desligamento do treinador, que registrava aproveitamento de quase 70% em 101 partidas, reacendeu entre especialistas a discussão sobre a pouca previsibilidade no mercado de trabalho, mesmo para profissionais com desempenho destacado.
À frente da equipe desde 2024, Filipe Luís acumulou 63 vitórias, 23 empates e 15 derrotas, conquistando cinco títulos: Copa do Brasil de 2024, Supercopa de 2025, Campeonato Carioca de 2025, Libertadores de 2025 e Brasileirão de 2025. Ainda assim, 2026 começou com instabilidade: das 15 derrotas do treinador no clube, cinco ocorreram nesta temporada, que já registra vice-campeonatos na Supercopa do Brasil e na Recopa Sul-Americana.
Pressão por resultados e falta de transparência
Para Emilio Coutinho, docente do curso de Jornalismo Esportivo do Senac São Paulo, a decisão reflete uma característica estrutural do futebol brasileiro, no qual projetos de longo prazo costumam ruir diante de uma sequência negativa. “Quando os clubes contratam treinadores, afirmam apostar em reformulação e identificação com o time. Porém, basta o primeiro ciclo de resultados ruins para que todo esse discurso perca força”, observa.
Na avaliação da consultora Marcela Zaidem, fundadora da Cultura na Prática (CNP), o impacto vai além do campo. “O desligamento de um líder reconhecido funciona como mensagem silenciosa à equipe. Quando alguém desse porte sai sem processo claramente explicado, o time deixa de jogar para ganhar e passa a jogar para não ser o próximo”, afirma.
Marcela acrescenta que decisões percebidas como improvisadas geram custos invisíveis, como perda de iniciativa e aumento da insegurança interna. “Demissão sem feedback é gestão por susto. Resolve um problema rápido, mas cria outro: ninguém sabe qual é a régua”, diz.
Aspectos legais e repercussões na carreira
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê que o empregador pode demitir sem necessidade de justificativa formal, desde que arque com verbas contratuais e rescisórias. No futebol, nota a reportagem, contratos costumam ter prazo determinado e estão sujeitos à pressão por resultados, o que explica, em parte, mudanças rápidas no comando técnico.
Eliane Aere, presidente da ABRH-SP, destaca que a forma como uma demissão é conduzida influencia clima organizacional, engajamento e capacidade de reter talentos. “Na era digital, as decisões de liderança ecoam. Cuidar de pessoas, comunicar com clareza e criar espaço para aprendizado deixou de ser diferencial; tornou-se necessidade estratégica”, afirma.
Substituição imediata
Menos de 24 horas após comunicar a saída de Filipe Luís, o Flamengo fechou acordo com Leonardo Jardim, que assinou contrato válido, a princípio, até o fim de 2027. Segundo o clube, as tratativas já estavam adiantadas antes mesmo da demissão do antigo treinador.
Fonte: g1
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