Buenos Aires – Ter trabalho formal deixou de ser garantia de dignidade salarial na Argentina: estudos recentes mostram que 1 a cada 5 empregados registrados continua abaixo da linha da pobreza, fenômeno que especialistas já chamam de “trabalhadores pobres”.
- Em resumo: Salário mínimo argentino recuou a patamar inferior ao da crise de 2001, corroendo o poder de compra até de quem tem carteira assinada.
Por que o holerite não cobre a cesta básica
Entre 2010 e 2025, o salário médio argentino perdeu mais de 20% do seu poder de compra, revela levantamento acadêmico. A corrosão ocorre enquanto a inflação anual, embora menor que em anos anteriores, acumula 33% e segue em trajetória ascendente. Dados oficiais indicam que o mínimo nacional já vale menos que há duas décadas, cenário que esvazia o bolso dos empregados formais e coloca pressão extra sobre quem atua na informalidade.
O quadro se agrava porque seis milhões de argentinos trabalham sem registro, sem direitos trabalhistas ou contribuição previdenciária. Segundo o Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires, um trabalhador informal tem três vezes mais chance de ser pobre do que um formal – ainda assim, o risco atinge também quem possui contrato assinado, como mostram as estatísticas comparadas com dados do IBGE sobre renda real.
“Sinto que estou em modo sobrevivência”, desabafa Antonela, 37 anos, que precisa de segundo emprego e ajuda da família para pagar contas básicas.
Disputa de narrativas sobre a queda da pobreza
O governo Javier Milei comemorou a redução oficial da pobreza para 28%, menor nível em sete anos. Porém, consultorias independentes apontam “viés metodológico” na medição baseada no custo da cesta básica – quando a inflação dispara, o índice infla; quando desacelera, encolhe. Especialistas como Daniel Schteingart, da plataforma Argendata-Fundar, afirmam que ao corrigir a distorção a retração da pobreza é “consideravelmente menor”.
Além disso, lembram que a própria desvalorização abrupta decretada no início do mandato elevou o indicador a quase 53%, o maior em 20 anos. Para a pesquisadora Roxana Maurizio, “ter emprego não é mais um seguro contra a pobreza”, principalmente porque a informalidade pressiona salários formais para baixo, criando um círculo vicioso de perda de renda.
Esse cenário mina a tradicional mobilidade social ascendente argentina: quatro em cada dez entrevistados pela Universidade Católica dizem viver pior que seus pais. Enquanto isso, Antonela sonha em largar o segundo emprego e voltar a frequentar a academia ou planejar pequenas viagens – metas simples que, no momento, parecem luxos distantes.
No longo prazo, analistas alertam que somente políticas de geração de trabalho decente e controle efetivo da inflação podem quebrar o ciclo dos “trabalhadores pobres”.
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