Vinte e dois universitários trocaram as salas de aula por roças e comunidades rurais de Sergipe. A imersão mostrou de perto como funciona a vida na Reforma Agrária.
Entre os dias 1º e 10 de junho, 22 universitários — 16 da Universidade do Novo México (UNM), nos Estados Unidos, e seis da Universidade Federal de Sergipe (UFS) — mergulharam na realidade de assentamentos da Reforma Agrária em diferentes regiões sergipanas. O Estágio de Vivência, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), teve como objetivo aproximar os participantes da produção agrícola familiar, da organização comunitária e das estratégias de resistência construídas no campo.
Reunidos logo no primeiro dia em Aracaju, os jovens foram distribuídos entre comunidades rurais de Santana do São Francisco, Porto da Folha, Gararu, Canindé de São Francisco, Poço Redondo, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão. Cada grupo ficou hospedado nas casas de famílias assentadas, compartilhando tarefas diárias e participando de assembleias, plantios e oficinas temáticas.
No assentamento Moacyr Wanderley, em Nossa Senhora do Socorro, uma das atividades mais comentadas foi a oficina de queijo artesanal. Além de aprenderem a coalhar e moldar a massa, os estudantes visitaram quintais de ervas medicinais, acompanharam tanques de piscicultura e conversaram com moradores sobre as transformações da comunidade desde a conquista da terra.
Já em São Cristóvão, a programação incluiu visita ao assentamento Emília Maria e ao Centro Histórico da cidade. Seguindo viagem pelo Alto Sertão, o grupo conheceu a Rota do Cangaço no assentamento Jacaré-Curituba, percorrendo trilhas que remetem às passagens de Lampião pela região.
As agendas de intercâmbio também alcançaram a comunidade quilombola Mucambo e o território indígena Fulkaxó, em Pacatuba. Nessas paradas, os estudantes ouviram relatos sobre a defesa de tradições, a busca por reconhecimento territorial e os desafios de produção em áreas coletivas.
“A proposta é que o aprendizado venha do convívio, do café cedo à roda de conversa à noite, sempre junto às famílias”, explicou Rosa Oliveira, do Setor de Educação do MST em Sergipe.
A antropóloga Solana Zandonai, doutoranda da Universidade de Brasília (UnB), acompanhou o grupo para registrar dados de um projeto em parceria com o Incra.
“Esta foi a minha primeira experiência no Nordeste com estudantes estrangeiros. Ver de perto como cada assentamento se organiza amplia a compreensão sobre políticas públicas e práticas agroecológicas”, avaliou.
Ao fim dos dez dias, os participantes apresentaram relatos coletivos que destacaram a diversidade produtiva — de hortas agroecológicas a criações de peixes —, a solidariedade entre vizinhos e a importância da autogestão para manter escolas, postos de saúde e espaços culturais ativos. Para os estudantes da UFS, a vivência reforçou conteúdos vistos em sala de aula; já os norte-americanos destacaram o contraste entre o modelo familiar sergipano e as grandes fazendas industriais dos Estados Unidos.
O MST informou que novas edições do estágio de vivência deverão ocorrer em 2027, com a expectativa de envolver estudantes de outras universidades brasileiras e estrangeiras.
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