Economistas alertam que a guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, que já provoca instabilidade em todo o Oriente Médio, elevou em poucos dias os custos de insumos e do transporte marítimo utilizados pela agricultura brasileira. O repasse desses aumentos pode encarecer alimentos nos próximos meses.
Fertilizantes sob pressão imediata
O Brasil depende de adubos importados e parte relevante da matéria-prima sai justamente do Oriente Médio. Após o início do conflito, cotações internacionais de ureia e amônia subiram cerca de 10% a 12% em um único dia, segundo Tomás Rigoletto Pernías, da StoneX Brasil. O pesquisador explica que empresas da região suspenderam vendas para avaliar os novos preços, enquanto fábricas no Irã reduziram a produção por falta de gás natural.
Para a safra brasileira em andamento, o impacto é limitado porque o adubo já foi comprado, observa Paulo Pavinato, da Esalq/USP. A preocupação recai sobre os plantios do segundo semestre, período em que tradicionalmente se adquirem fertilizantes fosfatados e potássicos para a soja, além dos nitrogenados usados no milho entre novembro e janeiro.
Frete e diesel mais caros
A decisão iraniana de fechar o Estreito de Ormuz obrigou navios a buscar rotas alternativas, elevando custos de frete, seguro e contêiner, relata Felippe Serigati, da FGV Agro. O pesquisador aponta que, mesmo quando a carga não tem como destino o Oriente Médio, o mercado global interligado acaba absorvendo a alta.
O petróleo originado na região também encarece, pressionando o preço do diesel utilizado em máquinas agrícolas e no transporte da produção. “É mais um peso num cenário em que o produtor já lida com juros altos e crédito restrito”, resume Leandro Gilio, do Insper Agro Global.
Efeito nas exportações brasileiras
Com a rota do Golfo afetada, carnes e açúcar enviados ao Oriente Médio enfrentam atrasos e novas tarifas de “guerra”, informa Ricardo Santin, da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Já Roberto Perosa, da Abiec, calcula que cerca de 10% da carne bovina exportada pelo país vai diretamente para a região, enquanto até 40% dos embarques fazem escala ali antes de seguir para Ásia e China.
No caso do milho, o Irã é o principal comprador brasileiro, mas a temporada de embarques só começa em junho, lembra Luiz Fernando Roque, da Hedgepoint. Até lá, o setor monitora a duração do conflito para estimar impactos.
O que esperar nos supermercados
Especialistas divergem sobre a magnitude do repasse ao consumidor. Para Gilio, o efeito sobre preços internos é “quase certo”, embora leve alguns meses para aparecer nas gôndolas. Serigati pondera que a recente queda do dólar e condições climáticas favoráveis à produção podem atenuar a pressão inflacionária.
Em Sergipe, produtores de grãos e avicultores acompanham o cenário com apreensão, já que o estado também depende de insumos externos e de rotas marítimas para escoar parte de sua produção.
Fonte: g1
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