Brasília – Desde a regulamentação das apostas esportivas em 2018, milhões de brasileiros lutam contra o jogo compulsivo. Levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) aponta que, em 2023, 28 milhões de pessoas com 14 anos ou mais fizeram algum tipo de aposta; desse total, 10,9 milhões exibiam comportamento de risco e 1,4 milhão já se enquadrava no diagnóstico de transtorno do jogo.
Bloqueio total de dinheiro e cartões
Antônio*, 22 anos, estima ter perdido R$ 53 mil em sites de apostas. Para evitar recaídas, entregou o controle de sua renda ao pai, cancelou cartões de crédito e barrou a possibilidade de novos empréstimos. “Hoje não fico com dinheiro nem cartão. Meu pai libera valores pequenos para despesas”, afirma.
Com tratamento psiquiátrico, uso de medicação para impulsividade e sessões semanais de terapia, o jovem relata avanços graduais. “Depois de três semanas sem apostar, passei a gerenciar R$ 500 por conta própria”, conta.
Relatos na internet como rede de apoio
Sem familiares próximos, o catarinense Rafael Santos, 42 anos, compartilha o drama em seu canal no YouTube. Ele calcula prejuízo superior a R$ 150 mil — R$ 80 mil em dívidas. Para se afastar dos sites, bloqueou contas de jogo e chegou a trocar o chip de celular para perder o acesso a uma plataforma não regulamentada.
Software de bloqueio lidera buscas no Brasil
O país é hoje o maior mercado de novos assinantes do Gamban, aplicativo que impede o acesso a sites de apostas. Segundo o cofundador Matt Zarb-Cousin, cerca de 6 mil brasileiros instalam o programa todos os meses, número que supera o de mercados tradicionais como Reino Unido e Estados Unidos.
Expansão de empresas de apostas
Dados da BigDataCorp mostram que o total de empresas com atividade de jogos online saltou de 840, no fim de 2022, para mais de 2,1 mil ao final de 2024 — alta de 153%. A projeção para 2025 indica abertura de mais 1,2 mil CNPJs. Norte e Nordeste concentram 37,3% dessas companhias, percentual bem acima da participação geral de 19,5% no universo de empresas brasileiras.
Por que o jogo ficou mais viciante
Para o psiquiatra Rodrigo Machado, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, a “cassino no bolso” explica a explosão de casos. Apostas in-play, realizadas durante eventos esportivos, reduzem o intervalo entre jogada e resultado e estimulam um ciclo contínuo de recompensa. “Plataformas oferecem até prêmios de consolação, distorcendo a percepção de perda e mantendo o usuário ativo”, diz.
Como buscar ajuda
Machado recomenda:
- atendimento com psicólogo ou psiquiatra;
- participação em grupos de Jogadores Anônimos;
- uso de aplicativos de bloqueio e solicitação de autoexclusão nos sites;
- supervisão financeira por familiares;
- monitoramento de dívidas via Banco Central e renegociação.
O especialista defende ainda políticas públicas que restrinjam publicidade com celebridades, limitem apostas múltiplas e criem serviço público 24 h para dependentes.
*Nome fictício para proteger a identidade do entrevistado.
Mais detalhes sobre dependência comportamental podem ser consultados no portal da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que coordena estudos sobre o tema.
Se desejar saber como outras iniciativas de saúde mental vêm sendo implementadas no estado, confira a seção dedicada no Se Por Dentro.
Em caso de necessidade urgente, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende 24 horas pelo telefone 188.
Com informações de G1
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