O antropólogo Michel Alcoforado, conhecido por investigar há 15 anos o universo dos super-ricos, afirma que o brasileiro se interessa pela elite por acreditar, ainda que de forma ilusória, que um dia fará parte dela. A conclusão faz parte do livro Coisa de Rico: A Vida dos Endinheirados Brasileiros (Todavia), lançado há dois meses, já com mais de 37 mil exemplares vendidos e na sétima tiragem.
Perfume de € 15 mil expõe distância social
Durante trabalho de campo em Genebra, Alcoforado acompanhou uma herdeira brasileira que pagou 15 mil euros para reproduzir um perfume usado por gerações da família. Segundo o pesquisador, o episódio simboliza o “muro” que separa as classes sociais no país: “A diferença aparece até no cheiro, não apenas no dinheiro”, declarou.
Conceito de ‘conquista’
O antropólogo sustenta que a elite local associa riqueza à ideia de conquista, diferentemente do ideal norte-americano de construção patrimonial: “Tudo precisa parecer que existe ‘desde sempre’, das viagens a Paris às bolsas herdadas”, observa. Para ele, a performance e o domínio de códigos sociais pesam tanto quanto renda ou patrimônio na definição de quem é rico no Brasil.
Desigualdade persistente
Alcoforado observa que, apesar de diferentes governos e cenários econômicos, os níveis de desigualdade pouco se alteraram. “Quando os pobres melhoram, os ricos melhoram na mesma proporção ou mais”, resume. O pesquisador defende que entender o comportamento das elites é fundamental para compreender a manutenção dessas disparidades.
Ingresso no círculo seleto
Para ter acesso a esse grupo, o antropólogo tornou-se referência em consumo de luxo, passando a ser convidado para eventos exclusivos. Ele relata “testes de reconhecimento”, como jantares repletos de talheres ou encontros cuja duração era ditada pelos anfitriões. “É uma violência sutil: o rico decide o que você come, bebe e quando a reunião termina”, descreve.
Limites da régua financeira
Na avaliação de Alcoforado, considerar apenas renda ou bens não basta para identificar o 1% mais rico: estilo de vida, escolas frequentadas pelos filhos, viagens internacionais e acesso a serviços de alto padrão compõem esse retrato. “Se férias sempre significam voos intercontinentais e drinks custam R$ 55, é preciso admitir que se vive como rico num país desigual”, afirma.
O autor destaca ainda que o fascínio nacional por manuais de etiqueta e influenciadores de luxo reforça o desejo de imitar hábitos da elite, fenômeno presente também em periferias, cada uma com seu próprio modelo de ostentação.
Recorte racial
Homem negro, o pesquisador diz ter enfrentado nas elites o mesmo racismo encontrado em outros espaços da sociedade. “Não me embranqueceriam; em algum momento o distanciamento racial apareceria”, relata, lembrando que nenhum de seus interlocutores super-ricos era negro.
Para Alcoforado, rótulos como “novo rico”, “super-rico” ou “rico tradicional” funcionam como “rinhas” internas. Ele defende a criação de mais pontes e menos muros entre os diferentes grupos sociais.
Livro sem nomes revelados
O autor garante que preservou a identidade dos entrevistados. “Falo de um fenômeno social, não de indivíduos”, ressalta. Segundo ele, leitores de diversas camadas se reconhecem nas histórias, o que reforça o alcance do tema.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a concentração de renda no país permanece entre as mais altas do mundo, cenário que Alcoforado acredita ser perpetuado pelos próprios mecanismos sociais descritos em sua pesquisa.
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Com informações de g1
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