Pequenos pecuaristas do Rio Grande do Sul e famílias indígenas da Bahia estão usando recursos de programas públicos e de empresas para conciliar produção agropecuária e conservação ambiental. Os projetos avançam em duas frentes: a regeneração do bioma Pampa, no Sul, e o cultivo do cacau cabruca, que mantém a Mata Atlântica em pé no Nordeste.
Pecuária familiar regenera o Pampa
Em Alegrete e Lavras do Sul (RS), o Projeto de Recuperação de Biomas, criado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS) em 2018, presta assistência técnica gratuita a pecuaristas familiares. A iniciativa é financiada por empresas com passivos ambientais por meio da Lei Estadual de Reposição Florestal Obrigatória (RFO).
Uma das financiadoras é a CPFL Energia. Os repasses, feitos trimestralmente, dependem de relatórios que comprovem o uso dos recursos. A área assistida só recebe a última parcela depois de laudo estadual que ateste aumento da quantidade de espécies nativas e melhoria do solo. “Se foram identificadas 20 ou 30 espécies na primeira visita, o mínimo é sair com 40 espécies”, explica José Mário Araújo Mafaldo, engenheiro agrônomo da Fetag-RS.
Desde 2019, 7.070 hectares de campo nativo foram recuperados. Entre 2015 e 2024, o Pampa perdeu 13.000 km² de vegetação, quase nove vezes a área da cidade de São Paulo. O avanço da soja é a principal pressão, segundo a rede MapBiomas.
O pesquisador da Embrapa Marcos Borba destaca que o Pampa é formado por pastagens naturais. Se manejada sem rotação ou adubação adequada, a pecuária pode degradar o solo e reduzir a diversidade de gramíneas. Essa orientação é repassada a produtores como Anderson Soares Ribeiro, que afirma já notar o “campo com mais vigor” dois anos e meio após aderir ao projeto.
Cacau cabruca fortalece a Mata Atlântica
A 3.000 km dali, em Ilhéus (BA), 11 famílias da Aldeia Tupinambá do Acuípe de Cima obtiveram cerca de R$ 50 mil do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para implantar um sistema agroflorestal com cacau de melhoramento genético. O método cabruca cultiva o fruto sob a sombra da Mata Atlântica, bioma do qual restam apenas 24% da vegetação original, de acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica.
O acesso ao crédito foi viabilizado pela iniciativa CredAmbiental, do Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus), que treina “ativadores de crédito” para auxiliar na documentação, negociação bancária e acompanhamento técnico. “Produtores achavam que o dinheiro era um subsídio sem retorno. Hoje explicamos que o recurso precisa ser investido na atividade”, diz o ativador Josué Castro.
Segundo a Conexsus, 98% dos 1.054 produtores que contrataram Pronaf com essa metodologia estão com as parcelas em dia. O modelo inspirou o programa federal Florestas Produtivas, lançado em 2023 pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). A nova ação oferece capacitação e apoio individualizado em municípios do Pará, Maranhão, Amapá e Acre. “Ao financiar uma agrofloresta, estamos apoiando o clima”, resume o secretário Moises Savian.
As experiências mostram como o “dinheiro do clima” — tema central da COP30, que ocorrerá em Belém — já começa a chegar a quem vive da terra, ajudando o Brasil a reduzir as emissões do setor agropecuário, responsável por 28% dos gases de efeito estufa no país.
Com informações de g1
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Pronaf oferece juros reduzidos e prazos estendidos para incentivar a adoção de práticas sustentáveis.
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