A colisão envolvendo uma Tesla Cybertruck em São Paulo reacendeu o debate sobre a importação independente de veículos, modalidade que permite a chegada de modelos não vendidos oficialmente no país. Embora qualquer pessoa física ou jurídica possa recorrer ao processo para uso próprio, a operação exige atenção a uma extensa lista de exigências legais e a custos que podem fazer o preço do automóvel praticamente dobrar.
As regras estão reunidas no programa Mover, que disciplina a entrada de veículos no Brasil. O primeiro passo é comprovar que o carro é considerado “novo” pela alfândega — na prática, costuma-se aceitar até cerca de 300 km rodados. Há casos em que o veículo recebe placa ainda na fábrica, o que pode dificultar a liberação.
Depois dessa verificação, a renda do comprador precisa ser compatível com a aquisição e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) deve autorizar a Licença de Importação. Se o modelo não atender aos limites de emissões e ruído, o pedido pode ser barrado. Na sequência, o Departamento Nacional de Trânsito emite o Certificado de Adequação à Legislação de Trânsito (CAT), comprovando que o carro segue as normas brasileiras.
A operação continua no Sistema de Comércio Exterior, vinculado à Receita Federal, onde é registrada a Declaração de Importação. “São muitas etapas e documentos. Por isso, os clientes buscam nossa assessoria e, muitas vezes, optam por fazer a operação pela nossa empresa. Isso agiliza a conclusão da compra”, explica Natel Valério, diretor comercial da consultoria Direct Imports.
Quando todo o trâmite ocorre sem pendências no país de origem, a liberação pode levar até 90 dias. Nesse intervalo, acumulam-se diferentes tributos: Imposto de Importação, IPI, ICMS, taxas aduaneiras e custos de transporte. Segundo Valério, para um veículo avaliado em US$ 100 mil, essas despesas ficam entre R$ 80 mil e R$ 120 mil, sem contar o frete marítimo.
O impacto no bolso é significativo. A própria Cybertruck, vendida pela Tesla nos Estados Unidos a US$ 115 mil (aproximadamente R$ 600 mil), chegou ao Brasil em outubro de 2025 por cerca de R$ 900 mil após todos os encargos, relata Valério.
Mesmo com o carro emplacado, o proprietário ainda lida com desafios. Como não há representação oficial da Tesla no país, a garantia fornecida pela montadora não é obrigatória. Situação semelhante vale para qualquer marca: se alguém trouxer um Mustang com motor 2.3 turbo, por exemplo, a Ford não precisa prestar assistência como faz com o Mustang GT vendido oficialmente.
Nesse cenário, oficinas especializadas e a importação de peças tornam-se rotinas para quem aposta na exclusividade. “Em até 30 dias é possível que o componente chegue ao Brasil”, informa Valério. O combustível nacional com maior teor de etanol, além de ruas que exigem outra calibração de suspensão, também precisa ser considerado pelos interessados.
Para Jair De Paula Machado Júnior, sócio de uma empresa de assessoria aduaneira, a cautela é essencial principalmente com veículos a diesel, que devem cumprir as normas mais recentes de emissões: “Caso contrário, o Ibama poderia barrar”. Ainda assim, ele lembra que modelos de luxo e configurações não oferecidas oficialmente — de Cadillac Escalade a picapes Toyota Tundra — continuam em alta entre os que buscam exclusividade, mesmo diante dos custos elevados e do caminho burocrático.
Com informações de g1
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