Um Inquérito Policial Militar (IPM) da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo indica possível proximidade entre o então presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União Brasil), e policiais que prestavam segurança a diretores da empresa de ônibus Transwolff, investigada por vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O ponto de partida foi uma mensagem de Nereu Aparecido Alves, 3º sargento da reserva, datada de 18 de agosto de 2023. No diálogo, resgatado pela Corregedoria em um celular apreendido do empresário Cícero de Oliveira, o “Té”, Nereu informa que se atrasaria para um compromisso porque acompanhava a inauguração de uma escola batizada com o nome da mãe do “chefe Milton”. A unidade é o Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva, que teve a presença do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A Corregedoria relaciona “Milton” ao ex-vereador, que presidia a Câmara na época. Milton Leite afirma não conhecer Nereu, sustenta que sua escolta era feita apenas pela Assessoria Militar da Casa e nega qualquer ligação com esquema de proteção a empresários.
Operação Kratos e apreensão em dinheiro
A mensagem foi anexada ao procedimento que embasou a Operação Kratos, deflagrada em 4 de maio, quando Nereu, o capitão Alexandre Paulino Vieira — apontado como líder do grupo de PMs — e o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário foram presos. Na residência de Nereu, os agentes apreenderam uma mala com R$ 1 milhão em espécie.
Outros quatro policiais, entre eles o tenente-coronel José Henrique Martins Flores, um subtenente, um sargento e um cabo, continuam sob investigação por suposta participação na organização criminosa.
Quebra de sigilo e questionamentos sobre escolta
Em 2023, o Ministério Público Estadual pediu à 2.ª Vara de Crimes Tributários a quebra do sigilo bancário de Milton Leite no âmbito das apurações sobre a Transwolff. Embora o ex-vereador não tenha sido denunciado, promotores desconfiavam de possível relevância dele nos fatos investigados.
Segundo o IPM, Nereu era considerado braço direito do capitão Alexandre na gestão do contrato de segurança da Transwolff e atuava na proteção pessoal do empresário Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o “Pandora”, alvo da Operação Fim da Linha. Relatórios apontam que o sargento também fazia depósitos bancários a pedido de Té e realizava escolta de valores.
Conversas via WhatsApp mostram interação frequente entre Nereu e o empresário entre setembro de 2020 e abril de 2024. Para a Corregedoria, os diálogos deixam clara relação de confiança e a prestação de serviços de segurança mesmo após a primeira fase da Operação Sharks, que já havia exposto a utilização de policiais da Rota pela Transwolff.
Investigadores agora buscam esclarecer por que Nereu, já na reserva, teria chamado Milton Leite de “chefe” e se ex-presidentes da Câmara chegaram a utilizar PMs fora do efetivo oficial. O atual presidente da Casa, Ricardo Teixeira (União Brasil), solicitou à Secretaria da Segurança Pública análise sobre a necessidade de reformular a Assessoria Militar do Legislativo paulistano.
A Câmara informou que apenas o capitão Alexandre exerceu função na Assessoria Militar entre 2014 e 2024 e que não há registros que o desabonem. A Casa reiterou que os outros policiais presos nunca integraram o setor.
As defesas dos militares detidos não haviam se manifestado até o fechamento desta reportagem.
Com informações de Jovempan




