Washington (EUA) – Em janeiro de 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial, o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS) – embrião da atual CIA – distribuiu um manual de 32 páginas com orientações a civis que quisessem prejudicar a máquina de guerra nazista de dentro das empresas. Intitulado Simple Sabotage Field Manual, o documento detalha desde atrasos burocráticos até formas de danificar equipamentos sem levantar suspeitas.
Instruções para o “cidadão-sabotador”
Assinado pelo então chefe do OSS, William Donovan, o guia lista comportamentos que minam a produtividade dos colegas, como:
- elogiar funcionários ineficientes e criticar injustamente os produtivos;
- marcar reuniões em momentos críticos de produção;
- aumentar a quantidade de formulários e exigir múltiplas assinaturas para tarefas simples;
- levantar questões irrelevantes, prolongar discursos e retomar decisões já tomadas.
Outra parte do documento incentiva ações físicas, como iniciar pequenos incêndios após o expediente, introduzir objetos em sistemas de lubrificação de máquinas ou obstruir vasos sanitários com esponjas secas que se expandem ao entrarem em contato com a água.
Estratégia de guerra híbrida
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o manual se encaixa no conceito de guerra híbrida, que mistura métodos militares e não militares para confundir o inimigo. O cientista político Leonardo Bandarra, da Universidade de Duisburg-Essen, lembra que a prática “mantém a ambiguidade entre o que é guerra e paz”. Já o historiador Victor Missiato, do Instituto Mackenzie, observa que os Aliados buscaram responder a táticas nazistas de sabotagem adotadas nos primeiros anos do conflito.
Ferramentas simples, impacto coletivo
Segundo o texto, os sabotadores deveriam usar materiais comuns, “da prateleira da cozinha” ao “lixo do quintal”. Pregar peças nos colegas, adotar postura de “hiperresponsabilidade” e criar conflitos no local de trabalho faziam parte da cartilha. Para manter a motivação, o OSS recomendava mostrar ao voluntário que ele integrava um esforço global, apesar de invisível.
Papel atual
Embora elaborado há oito décadas, vários dos métodos descritos lembram práticas corporativas que ainda afetam empresas, como excesso de reuniões improdutivas e burocracia interna, avaliam consultores ouvidos pelo g1. O executivo Rafael Catolé, autor de “O Poder da Gestão”, afirma que o documento lista “tudo o que não se deve fazer” em administração moderna.
O manual de sabotagem simples permanece como exemplo histórico de como a guerra se estendeu além dos campos de batalha, alcançando escritórios, fábricas e rotinas civis.
Com informações de g1
O documento original pode ser consultado no arquivo digital da CIA, que abriga centenas de relatórios de inteligência desclassificados.
Para saber como conflitos modernos impactam empresas e trabalhadores, visite nossa sessão Internacional.
Este conteúdo mostrou como táticas de 1944 seguem atuais em muitos ambientes corporativos. Compartilhe a matéria e acompanhe nossos próximos relatos sobre história e geopolítica.
Siga o SE Por Dentro e entre no nosso grupo de notícias.








