Paris, Washington, Bratislava – A proposta de enxugar a lista de feriados nacionais ganhou força em vários países nos últimos meses. Líderes políticos da França, Eslováquia, Dinamarca e Estados Unidos defendem que menos dias de folga podem aliviar pressões fiscais e impulsionar o crescimento econômico. Economistas, porém, apontam que a relação entre produtividade e número de feriados é limitada e controversa.
Quem quer cortar?
Em julho, o primeiro-ministro francês François Bayrou sugeriu retirar a Segunda-feira de Páscoa e o Dia da Vitória na Europa (8 de maio) do calendário de 11 feriados da França. A ideia provocou reação imediata de partidos de todo o espectro político.
Antes, a Eslováquia já havia excluído um feriado em 2024 para melhorar as contas públicas, repetindo medida da Dinamarca em 2023, quando Copenhague eliminou um feriado pós-Páscoa para abrir espaço no orçamento de defesa.
Nos Estados Unidos, o ex-presidente Donald Trump escreveu em 19 de junho que “muitos feriados sem trabalho” custariam “bilhões de dólares” ao país. A data coincide com o Juneteenth, feriado que marca o fim da escravidão e foi criado pelo governo anterior.
O que dizem os estudos
Levantamento de 2021 assinado pelos pesquisadores Lucas Rosso e Rodrigo Andres Wagner indica que feriados deslocam a demanda entre setores do Produto Interno Bruto (PIB) e, quando caem em fins de semana sem compensação, geram leve alta na atividade. Já análises do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Bundesbank mostram que qualquer ganho de PIB costuma ser proporcionalmente menor que o aumento no total de dias úteis.
Para Charles Cornes, economista sênior da consultoria britânica Cebr, “a produtividade depende mais de eficiência da mão de obra, qualificação e tecnologia do que do número de feriados”. Ele ressalta que setores como hotelaria e varejo veem, inclusive, aumento de movimento nas folgas.
Bem-estar e jornada de trabalho
Adewale Maye, analista do Economic Policy Institute em Washington, alerta para o risco de esgotamento quando férias e feriados são reduzidos. “Trabalhar mais nunca foi o problema nos EUA; o desafio é construir uma economia em que todos se sintam apoiados”, afirmou.
Países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) oferecem entre 30 e 36 dias de folga remunerada por ano ao combinar férias e feriados. Áustria, Dinamarca e Finlândia, que estão no topo dessa lista, também figuram entre os maiores PIB per capita do mundo.
EUA fora da curva
Os Estados Unidos são o único membro da OCDE sem férias remuneradas garantidas em lei. O país conta com 11 feriados nacionais, mas trabalhadores de setores como varejo e turismo costumam trabalhar nesses dias sem compensação. Para Maye, isso enfraquece a tese de que menos folgas trariam ganhos automáticos de produtividade.
Relatório recente do OECD Employment Outlook reforça que investimento em qualificação e tecnologia tem impacto maior sobre a produtividade que a simples ampliação da jornada.
No Brasil, propostas semelhantes não avançaram no Congresso, mas o debate internacional recoloca o tema na pauta, especialmente em meio a discussões sobre reforma tributária e busca por maior competitividade.
Enquanto governos ponderam ganhos fiscais imediatos, especialistas lembram que o tempo livre também influencia saúde, consumo e satisfação dos trabalhadores — fatores que, a longo prazo, repercutem na atividade econômica.
Para continuar acompanhando as movimentações do cenário internacional, o leitor pode acessar nossa editoria de Internacional, onde publicamos análises e desdobramentos diários.
Reduzir feriados pode parecer um atalho para aumentar o PIB, mas as evidências mostram um quadro multifacetado: ganhos pontuais podem ser anulados por custos sociais e queda de produtividade no médio prazo. Siga a SeporDentro para receber atualizações e entender como essas decisões impactam o mercado de trabalho.
Com informações de g1




