Washington, 28 ago. 2025 – O governo dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump em seu segundo mandato, intensificou a aplicação de tarifas sobre produtos estrangeiros e acendeu o alerta para uma nova fase das relações internacionais baseada na chamada “geoeconomia”. Especialistas ouvidos por universidades brasileiras e estrangeiras afirmam que, nesse cenário, o Brasil desponta entre os potenciais perdedores.
Tarifas em escalada
Desde a posse, em janeiro de 2025, Trump impôs tarifas de 25% sobre mercadorias do México e do Canadá, elevou para 15% as taxas contra a União Europeia – após um acordo fechado em julho – e, no início deste mês, anunciou um acréscimo de 40% sobre todos os produtos brasileiros, somando-se aos 10% já em vigor.
O republicano justificou a medida alegando uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro na Justiça brasileira. Paralelamente, o Departamento de Comércio abriu investigação sobre supostas “práticas comerciais desleais” do Brasil, citando o sistema de pagamentos instantâneos Pix.
Geoeconomia como “arma”
O uso de instrumentos econômicos para fins estratégicos foi descrito pelo estrategista Edward Luttwak em 1990 e retomado no livro “War by Other Means” (2016), de Robert Blackwill e Jennifer Harris. Entre as principais ferramentas estão tarifas, sanções financeiras, subsídios e o poder de moedas fortes.
Renato Baumann, pesquisador do Ipea e professor da UnB, avalia que Washington busca reduzir seu déficit comercial “a qualquer custo”. Já a economista Vera Thorstensen, da FGV, vê a política tarifária como parte de um “soft power” que dispensa tropas, mas pressiona rivais por meio da economia.
De acordo com cálculos da Fitch Ratings, a tarifa média efetiva dos EUA saltou de 2% em 2024 para 17% em 2025, tornando o país o mercado mais protegido do mundo.
Disputa com a China e papel do dólar
Para o cientista político Daniel Kosinski, da Uerj, a escalada tarifária busca conter a expansão chinesa, que domina cadeias de suprimento e minerais de terras raras. Ao mesmo tempo, os EUA tentam preservar a centralidade do dólar, movimento que Thorstensen classifica como prelúdio de uma futura fase de “geofinanças”.
Impacto sobre o Brasil
No primeiro semestre de 2025, as trocas comerciais Brasil-EUA registraram superávit de US$ 1,7 bilhão para os norte-americanos. O Brasil é deficitário nessa relação desde 2009. Segundo Baumann, a nova tarifa visa também pressionar o mercado brasileiro em favor de big techs e bandeiras de cartão de crédito, além de enfraquecer o Brics em planos de reduzir o uso do dólar.
Do outro lado, a corrente comercial com a China atingiu US$ 188,17 bilhões em 2024, equivalendo a 28% das exportações brasileiras. Thorstensen alerta que o país terá de escolher entre os dois gigantes ou buscar rapidamente acordos com parceiros que ainda seguem as regras tradicionais da Organização Mundial do Comércio (OMC).
OMC sob pressão
Especialistas apontam para uma crise existencial na OMC, acentuada quando Trump bloqueou, em seu primeiro mandato, a nomeação de juízes para o Sistema de Solução de Controvérsias (SSC). A paralisação limita a capacidade da entidade de arbitrar disputas. Em 6 de agosto, o Itamaraty solicitou à organização que avalie a legalidade das tarifas norte-americanas, mas analistas duvidam de sanções eficazes contra Washington.

Imagem: Internet
Segundo dados da própria OMC, a tarifa média entre membros caiu de 13,2% em 1996 para 7,4% em 2020, enquanto barreiras não tarifárias ganharam espaço. Mesmo assim, Trump resgatou o protecionismo clássico, citando o Tariff Act de 1890, do então presidente William McKinley, durante o discurso de posse em que prometeu “deixar os EUA mais ricos”.
Próximos passos
Com a expansão de tarifas, sanções e investimentos estratégicos, estudiosos projetam a consolidação da geoeconomia como eixo central da política externa de grandes potências. Para países de médio porte, como o Brasil, o desafio será equilibrar interesses comerciais com pressões geopolíticas cada vez mais intensas.
Para entender melhor como funciona o mecanismo de resolução de controvérsias citado pelos especialistas, a Organização Mundial do Comércio oferece detalhes oficiais em seu site institucional neste link.
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Continue ligado para mais atualizações sobre as tensões comerciais entre EUA e Brasil e seus reflexos na economia global.
Com informações de G1
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