
Brasília – A autonomia dos bancos centrais voltou ao centro do debate internacional depois que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump cogitou demitir a diretora do Federal Reserve (Fed) Lisa Cook. A ofensiva, baseada em acusações não comprovadas de fraude hipotecária, levou autoridades monetárias de vários países — inclusive o Banco Central do Brasil — a manifestar apoio público à independência da instituição norte-americana.
A história mostra que, quando governos interferem diretamente na definição dos juros, o resultado costuma ser inflação mais alta e crescimento mais fraco. Veja cinco episódios recentes ou emblemáticos de pressão política sobre bancos centrais.
Estados Unidos
Nenhum dirigente do Fed chegou a ser removido por um presidente, mas tentativas de influência ocorreram ao longo do tempo. Em 1965, Lyndon Johnson chamou o então presidente do Fed, William McChesney Martin Jr., ao seu rancho no Texas e exigiu o fim da alta de juros, chegando a empurrá-lo fisicamente. Em 1972, Richard Nixon pressionou Arthur Burns a manter os custos de empréstimos baixos para favorecer a reeleição. O estímulo acabou alimentando um surto inflacionário combatido apenas anos depois, quando Paul Volcker elevou a taxa a dois dígitos.
Turquia
Entre 2019 e 2023, o presidente Recep Tayyip Erdogan, que se define “inimigo dos juros”, demitiu quatro chefes do banco central por discordar de aumentos ou atrasos em cortes de taxas. A lira perdeu valor, a inflação escalou e o poder de compra das famílias despencou. Em 2023, Erdogan recuou e nomeou Hafize Gaye Erkan, que subiu o juro de 8,5% para 45%. Seu sucessor, Fatih Karahan, ainda apertou mais a política antes de iniciar uma flexibilização recente. A inflação caiu do pico de 85% no fim de 2022, mas permanece em patamar de dois dígitos.
Argentina
A nacionalização do banco central em 1946, sob Juan Perón, inaugurou um ciclo de crises. O governo passou a financiar gastos via emissão de moeda, gerando ondas de inflação. Desde 2000, 14 presidentes passaram pela autoridade monetária; alguns foram afastados por discordar do Executivo. É o caso de Martín Redrado, demitido em 2010 após se opor ao uso de reservas cambiais para pagamento de dívida externa.
Venezuela
A Constituição venezuelana prevê certa autonomia monetária, mas leis aprovadas durante o governo Nicolás Maduro colocaram o banco central sob controle direto do Palácio de Miraflores. Após a queda dos preços do petróleo em 2014, a instituição passou a financiar déficits, alimentando uma hiperinflação que chegou a superar 1.000.000% em 2018, segundo estimativas independentes.
Zimbábue
Na década de 2000, o banco central emitiu moeda para cobrir gastos do então presidente Robert Mugabe, incluindo despesas eleitorais e subsídios agrícolas. A hiperinflação explodiu e, em janeiro de 2009, circulou uma cédula de 100 trilhões de dólares zimbabuanos, símbolo da perda de valor da moeda local.
Os episódios mostram que, quando a política contamina a condução da política monetária, o custo costuma recair sobre a população por meio de preços mais altos e crescimento econômico reduzido.
Com informações de g1
Estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) reforça que bancos centrais independentes tendem a registrar inflação menor no longo prazo.
Para acompanhar outras notícias sobre economia e política, visite a seção de Política do nosso site.
Fique atento às atualizações e compartilhe esta reportagem para que mais pessoas entendam como a autonomia das autoridades monetárias impacta diretamente o dia a dia de todos.




