São Paulo, 20 de agosto de 2025 – O economista Michael França, 37 anos, apresenta hoje na capital paulista a obra “A Loteria do Nascimento: filha do porteiro termina universidade, mas não alcança filho do rico” (Editora Jandaíra), escrita em parceria com o sociólogo Fillipi Nascimento.
Doutor em Teoria Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Núcleo de Estudos Raciais (Neri) do Insper, França sustenta que fatores como local de nascimento, gênero e raça continuam a pesar mais que o esforço individual na ascensão social. O pesquisador classifica esse conjunto de condições como “loteria do nascimento”.
Educação não anula disparidades
França cresceu no bairro Costa Teles 1, em Uberaba (MG), filho de uma trabalhadora doméstica que concluiu apenas o primeiro colegial. Mesmo com trajetória acadêmica de destaque, ele afirma que a escolaridade isolada não elimina as barreiras impostas por origem familiar, cor e gênero.
O economista lembra que políticas afirmativas, como o Programa Universidade para Todos (Prouni) — que completa 20 anos em 2025 e já financiou 3,5 milhões de bolsas —, ampliaram o acesso ao ensino superior. No entanto, segundo ele, a distribuição desigual de patrimônio, redes de contato e códigos culturais ainda impede que estudantes de baixa renda atinjam o mesmo patamar daqueles que pertencem a famílias abastadas.
Redes de contato e patrimônio familiar
Na comparação entre dois formandos de igual desempenho — um de família rica e outro de origem humilde —, França destaca que o primeiro costuma ter uma rede de relacionamentos mais ampla, possibilidade de assumir riscos e maior afinidade cultural com líderes empresariais. Já o segundo, observa, sente pressão para trabalhar rapidamente e sustentar a família, além de enfrentar ambientes corporativos onde seu repertório cultural é subvalorizado.
Impactos no mercado e na saúde mental
O pesquisador também aponta consequências psicológicas dessa dinâmica. Jovens de baixa renda, relata, tendem a enfrentar maior desgaste emocional durante o processo de ascensão, enquanto herdeiros ricos, apesar dos privilégios, podem lidar com expectativas elevadas que afetam a autoestima.
Reforma tributária em debate
Na avaliação de França, a educação é frequentemente usada como desculpa para adiar mudanças estruturais em tributação e gastos públicos. Ele defende que a combinação de sistema tributário regressivo e despesas estatais que beneficiam as camadas mais altas perpetua a desigualdade brasileira.
O economista considera que propostas de tributação de grandes fortunas e isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil enfrentam resistência no Congresso por falta de compreensão pública sobre como a desigualdade se reproduz.
A obra lançada hoje reúne dados estatísticos e entrevistas para demonstrar que, mesmo após conquistar diploma universitário, filhos de famílias pobres continuam distantes dos resultados alcançados por seus pares de famílias ricas.
Imagem: g1.globo.com
A Loteria do Nascimento chega às livrarias nesta quarta-feira (20/8) com sessão de autógrafos em São Paulo.
Fim
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) corroboram a tese de que a desigualdade de renda no Brasil está ligada à origem familiar e às oportunidades iniciais.
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Com informações de G1




