A chef indiana Namrata Hegde, de 29 anos, afirma que o clima na cozinha do restaurante Noma, em Copenhague, ficava “carregado de ansiedade e medo” quando o chef dinamarquês René Redzepi chegava ao local. O relato surge após Redzepi anunciar, na quarta-feira (11), que deixou o comando da casa depois de denúncias de agressões e humilhações contra funcionários.
Estágio não remunerado e rotina repetitiva
Namrata realizou um estágio de três meses entre outubro e dezembro de 2018, período em que os estagiários ainda não recebiam remuneração. Segundo ela, o anúncio prometia uma experiência educacional de 37 horas semanais, com rodízio por diferentes áreas da cozinha, atividades externas e workshops. Na prática, relata, passou boa parte do tempo repetindo a mesma tarefa: produzir cerca de 120 “fruit-leather beetles” por dia, pequenas peças modeladas com massa de fruta que compunham um dos pratos do menu.
Ela descreve o ambiente como “extremamente competitivo e tenso”, marcado por silêncio quase absoluto. De acordo com a chef, conversas ou risadas eram malvistas e havia tentativas de sabotagem entre estagiários. Um episódio marcante ocorreu quando um colega cortou a mão ao fatiar maçãs; em vez de socorro imediato, ouviu risadas e comentários de que “não era material para o Noma”. O próprio estagiário buscou o kit de primeiros socorros e se recuperou.
Efeitos duradouros e ceticismo sobre o afastamento
Após deixar o restaurante, Namrata afirma ter enfrentado ansiedade, sensação constante de urgência e sintomas de estresse pós-traumático. Hoje radicada em Nova York, ela trabalha com mídia gastronômica como food stylist e escritora, destacando que a experiência reforçou seu compromisso em tratar colegas com respeito.
A decisão de Redzepi de se afastar ocorreu depois que o jornal “The New York Times” ouviu cerca de 35 ex-funcionários que atuaram no Noma entre 2009 e 2017. Em nota publicada nas redes sociais, o chef declarou assumir responsabilidade pelas próprias ações, disse que o restaurante “deu grandes passos para transformar sua cultura” e renunciou também ao conselho da MAD, organização sem fins lucrativos fundada por ele. Mesmo assim, Namrata demonstra ceticismo quanto a um desligamento completo, lembrando que Redzepi mantém vínculos com outros empreendimentos na Dinamarca.
Reflexos no debate sobre condições de trabalho
O caso reacendeu discussões na gastronomia internacional sobre jornadas exaustivas e relações de poder nas cozinhas. Em Sergipe, chefs e estudantes da área acompanham o episódio como alerta para a importância de ambientes profissionais que preservem o bem-estar físico e emocional de suas equipes.
Fonte: g1
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