Brasília – O programa Globo Rural completou 46 anos na última terça-feira (6) e, para marcar a data, dedicou a edição de domingo (4) aos cantos de trabalho que persistem em diferentes regiões do país.
Tradição que atravessa gerações
Entoadas enquanto o serviço avança, as canções ajudam a cadenciar tarefas repetitivas, aliviam o cansaço e viram momento de celebração coletiva. Na Bahia, agricultores marcam o ritmo ao bater vagens de feijão; em Alagoas, crianças do povo Kariri-Xocó aprendem desde cedo o “rojão de roça”, fusão de canto e esforço físico.
Assobios no interior do Paraná
No Faxinal do Emboque, zona rural de Prudentópolis (PR), o agricultor Nelson Przyvitowski canta e assobia enquanto ara a terra ou cuida dos animais. Ele e a esposa, Marli, mantêm melodias do folclore polonês em um barracão centenário erguido a machado. Entre um verso e outro, Marli recorre à internet para pesquisar receitas de produtos de limpeza que fabrica e vende na comunidade.
Mutirões e economia solidária em Minas Gerais
Na região de Arinos (MG), o grupo Central Veredas reúne 160 bordadeiras e fiandeiras. São mais de 250 canções de trabalho já catalogadas e um faturamento anual aproximado de R$ 350 mil, resultado da venda de peças bordadas, tecidos, fios e corantes naturais.
No município vizinho de Urucuia, mutirões em casas de farinha processam até 500 kg de mandioca em um dia. Enquanto descascam, raspam e torram, vizinhos alternam quadrinhas que dão ritmo ao serviço e reforçam o sentimento de comunidade.
Voz que saiu da roça para o estúdio
Aos 80 anos, a alagoana Dona Rosália gravou um CD com o grupo Cabelo de Maria. Mestre do coco de roda, ela carrega lembranças das antigas tapagens de taipa, quando barro e canto erguiam paredes de casas. Em Arapiraca (AL), as destaladeiras de fumo, responsáveis por retirar manualmente o talo das folhas, também seguem cantando em ambiente doméstico após o fim dos grandes salões coletivos.
Precisão em cada batida
Em Serra Preta (BA), o mutirão da bata de feijão depende de sincronia. O canto responsorial – pergunta e resposta – guia os bastões que batem nas vagens. “Se alguém sai do compasso, leva pancada na perna”, afirma a pesquisadora Renata Mattar, para quem as melodias humanizam o trabalho.
Cultura que dialoga com o mundo
O professor Iván García, da Universidade Nacional Autônoma do México, lembra que os cantos de trabalho estão “na madrugada das formas poéticas” e inspiraram músicas populares como “La Bamba”, nascida dos marinheiros de Veracruz. Na Venezuela, eles surgem nas lidas de ordenha; no Brasil, aparecem nos aboios que guiam o gado. O agricultor baiano Alvino Dias, por exemplo, compõe chulas que já citam WhatsApp e celular.
A reportagem mostrou ainda caixas de mercadorias transformadas em instrumentos, sopros ancestrais e pesquisadores que mapeiam canções para evitar que se percam.
As vozes que embalam a produção agrícola permanecem vivas, comprovando que, muitas vezes, o som é tão essencial quanto a ferramenta na mão do trabalhador.
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), manifestações orais como os cantos de trabalho podem ser reconhecidas como patrimônio cultural imaterial, reforçando a importância de preservar essas tradições saiba mais.
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Os cantos de trabalho mostram que música e esforço caminham juntos no campo brasileiro. Continue acompanhando nossas reportagens e compartilhe este conteúdo com quem valoriza as manifestações culturais do país.
Com informações de G1
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