A historiadora britânica Eliza Filby, especializada em gerações, sustenta que trabalhadores com menos de 45 anos têm maior chance de comprar a casa própria recorrendo ao patrimônio familiar do que à renda obtida no emprego. A conclusão está no livro “Inheritocracy: It’s Time to Talk About the Bank of Mum and Dad”, best-seller no Reino Unido.
Filby define esse fenômeno como “herançocracia”, conceito que ela apresenta como o oposto da meritocracia. Segundo a autora, em vez de conquistas baseadas no esforço individual, passam a pesar mais as reservas financeiras de pais e avós – o chamado “banco da mamãe e do papai”.
O quadro, afirma a historiadora, afeta geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e millennials (1981-1996) e tende a alcançar as gerações Z (1997-2012) e alfa (2013-2024).
De mérito a herança
Filby recorda que a palavra “meritocracia” foi cunhada em 1958, em tom satírico, pelo sociólogo britânico Michael Young. Com o tempo, a crítica se transformou em elogio, reforçando a ideia de que estudo e trabalho garantiriam mobilidade social. Essa narrativa ganhou força entre os baby boomers (1946-1964), favorecidos pelo crescimento econômico do pós-guerra.
A autora, porém, argumenta que, a partir da década de 1990, o diploma universitário deixou de assegurar estabilidade. Custos de ensino subiram, dívidas estudantis se acumularam e salários não acompanharam o mesmo ritmo. Paralelamente, empresas reduziram investimentos em formação interna, esperando profissionais “prontos” desde o primeiro dia.
O “banco” familiar
Num cenário em que moradia, educação e cuidados infantis encareceram após a crise de 2008, o apoio financeiro familiar se tornou decisivo. O termo “banco da mamãe e do papai” surgiu no Reino Unido por volta de 2013 para descrever pais e avós que usam economias próprias para cobrir aluguel, hipoteca, mensalidades ou despesas básicas dos jovens.
Filby destaca que a prática atravessa todas as faixas de renda. Na classe média e acima, a ajuda costuma aparecer em entradas para imóveis. Entre famílias trabalhadoras, manifesta-se oferecendo moradia, alimentação ou cuidados diários. O problema, ressalta ela, é que nem todos dispõem do mesmo nível de suporte, ampliando desigualdades.
Impactos na vida adulta
A dependência do patrimônio herdado também influencia escolhas pessoais. Pesquisas citadas pela escritora indicam que mais da metade da geração Z considera compatibilidade financeira essencial em um relacionamento, reforçando uniões entre pessoas com grau semelhante de apoio familiar.
Enquanto isso, muitos integrantes da geração X veem-se pressionados a cuidar simultaneamente de filhos adultos e pais idosos, papel que a autora descreve como “classe média espremida”.
Para Filby, discutir a herançocracia é urgente: quando grande parte da população passa a acreditar que o esforço individual não basta, a confiança no contrato social fica ameaçada.
Com informações de g1
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